Página:A toponímia indígena artificial no Brasil.pdf/6

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ISSN: 2317-2347 – v. 9, n. 2 (2020)
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séculos e a língua indígena falada nos primeiros tempos da Conquista. Mitificou-se o índio da costa, o tupi. Tal termo era um genérico usado para designar os grupos indígenas que falavam a língua brasílica descrita por Anchieta e Figueira em suas gramáticas. Eram aqueles os tupiniquins, os tupinambás, os potiguaras, os caetés, os temiminós, os tupis de São Vicente etc. Enquanto isso, os muitos índios ainda existentes no século XIX pelo Brasil afora eram socialmente menosprezados, discriminados e suas línguas eram ignoradas.

Com o advento do Modernismo no nosso país, iniciado com a Semana de Arte Moderna, em 1922, os índios do passado tornaram-se novamente uma referência cultural basilar para a renovação estética e cultural que se pretendia. Formava-se um ambiente propício aos estudos das línguas indígenas brasileiras de importância histórica, principalmente o tupi antigo e o nheengatu. Isso também se explicava pelo surgimento de ideologias nacionalistas no mundo ocidental. No Brasil, a ascensão de Getúlio Vargas ao poder, em 1930, foi o início de uma fase histórica assinalada por grande nacionalismo político e econômico. A Era de Vargas foi, com efeito, uma época em que os topônimos de origem indígena foram abundantemente criados no país. Com efeito, o decreto-lei n. 5.901, de 21 de outubro de 1943, estabelecia normas para a “eliminação no país da repetição de topônimos de cidades e vilas”. O artigo 7º, III, desse decreto-lei rezava o seguinte:

Como novos topônimos, deverão ser evitadas designações de datas, vocábulos estrangeiros, nomes de pessoas vivas, expressões compostas de mais de duas palavras, sendo, no entanto, recomendável a adoção de nomes indígenas ou outros com propriedade local. (DIÁRIO OFICIAL DA UNIÃO, 1943, p. 15750).

Assim, em cumprimento a tal decreto-lei, muitos municípios tiveram seus nomes substituídos no ano seguinte, e, muitos deles, por nomes de origem tupi.

Ainda na Era de Vargas, em 1935, foi criada a cadeira de língua tupi na faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Naquele ano, Tupi e Toponímia passaram a figurar no currículo do curso de Geografia. O primeiro regente de tais cadeiras foi Plínio Ayrosa, um engenheiro e pesquisador autônomo que ministrava palestras no Centro do Professorado Paulista havia já algum tempo e que, pela nomeada que alcançara em virtude disso, foi convidado pelo reitor da novel universidade para criar nela os aludidos cursos. Nos anos quarenta, novas iniciativas semelhantes àquela surgiriam no Brasil. Criam-se cursos de tupi antigo na PUC do Rio de Janeiro (sob a regência do Pe. Antônio Lemos Barbosa), na

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