Página:Ao correr da pena.djvu/178

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A porta abriu-se; e entrou-me um homem já idoso, vestido em trajes de pretendente, de calça, casaca e colete preto. Havia naquele carão um não sei que, um certo ar de ministro demitido, de deputado que não foi reeleito, ou de diplomata em disponibilidade.

Trazia debaixo do braço um maço enorme de jornais, de planos de estrada de ferro, de projetos de navegação fluvial e de regulamentos e leis brasileiras. Quando dei com aquela papelada, fiquei horrorizado e com a idéia de que o sujeito se lembrasse de a desenrolar.

Enfim o homem chegou-se, fez as duas cortesias do estilo, temperou a garganta, e dirigiu-me a palavra.

— É ao Sr. Al. que tenho a honra de falar?

— Um se criado.

— Pois, senhor, eu sou o Ano de 1854.

— O quê?

— Eu sou o Ano de 1854.

Desta vez não havia que duvidar; tinha ouvido bem. O tal homem dos papéis ou era um hóspede que se tinha escapado do Hospício de Pedro II, ou então queria caçoar comigo. Em qualquer dos casos, não ganhava nada com zangar-me; por conseguinte, tomei o bom partido de aceitar a minha visita por aquilo que ela se anunciava.

— Muito bem, senhor; respondi-lhe eu, queria ter a bondade de sentar-se, e dizer-me o que me dá a subida honra de ser visitado pelo Ano de 1854.

— O senhor não ignora que estou breve a concluir a minha carreira política, e a retirar-me de uma vez dos negócios.

— Não, senhor, não ignoro: depois de amanhã, creio que é dia de São Silvestre, dia em que todos os membros de sua família costumam abdicar.

— É verdade, replicou-me o sujeito com um suspiro; depois de amanhã terei cessado de reinar!

— Mas creio que não foi para me dar esta grande novidade que tomou o incômodo de procurar-me?

— Decerto: o que me trouxe aqui foi especialmente pedir-lhe a sua benevolência.