Página:Ao correr da pena.djvu/180

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contra aqueles que o atacaram; mas hoje vejo que tudo aquilo quase que não passou de palavras, e que as ruas continuam a ser charcos de lama.

— Mas, senhor...

— Tenha paciência, deixe-me acabar. Há aí uma pretendida rega, que o senhor pôs em voga, e que só serve de enlamear os passeios todas as tardes: ao meio-dia tudo está seco; quando ameaça chover, aí temos as carrocinhas a refrescarem as ruas, provavelmente para que a chuva não as constipe.

— Já vejo que neste ponto o senhor está prevenido contra mim.

— Prevenido, não. O senhor caçoou completamente conosco; não tem desculpas.

— Bem, não insisto mais sobre isso; mas creio que não me poderá negar a iluminação a gás.

— Ah! a iluminação a gás! Não estou bem certo, mas tenho uma lembrança vaga de que já é idéia do 53. Entretanto concedo que seja sua. Como se defende o senhor contra as acusações que se lhe têm feito de nos ter roubado o encanto dos belos luares, e de haver privado os namorados daquelas noites escuras tão favoráveis a uma conversinha de rótula, ou a um passeio de Rua do Ouvidor?

— Ora, senhor, esses homens não sabem o que dizem: todo o namorado, toda a mocinha - é coisa sabida - precisa de um pos da lua.

— E esses eclipses não anunciados na folhinha, a má qualidade do gás, o preço exorbitante dos combustores, o cálculo excessivo da quantidade consumida! Como se defende desta e outras censuras graves que lhe têm feito os jornais?

— A falar a verdade, eu carreguei um pouco a mão; mas, além de outras razões, era preciso não desacreditar o gás, vendendo-o muito barato logo em começo.

— Bela teoria!