Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/174

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d'aquellas que vira no banho na praia do mar. Para se desenganar perguntou-lhe:

— De quem é esta bola de vidro?

— É minha; e ainda hasde ter na algibeira outra que é de minha irmã que está ali n'aquella outra porta encantada.

— Deixa estar, que eu é que vou livral-a; mas antes de tudo vou-te pôr lá em cima.

Deu signal, e os dois companheiros pucharam a corda. Emquanto elles iam subindo a menina tirou um annel do dedo, e disse:

— Toma lá a minha memoria; emquanto estiver ao pé de ti é que poderei fallar; sem tu estares ficarei muda.

O Bengala de dezeseis quintaes tornou a descer ao poço e chegou á outra porta; bateu, e só depois de muito bater, é que lhe abriram; era outra mulher, que lhe disse:

— Fuja d'aqui, homem, quando não vem o moléquinho que o mata.

— Ai o moléquinho das botas vermelhas! Com esse é que me eu quero.

— Olhe que elle não tarda, que foi buscar de comer; ainda que se lhe bata, nada lhe faz mal; só se fôr com aquella espada preta que está ali pendurada. N'isto chega o moléquinho:

— Aqui cheira-me a carne de gente.

Bengala de dezeseis quintaes tinha-se escondido detraz da porta, e assim que o apanhou a geito deu-lhe tamanha estourada, que o açapou no chão. Mas o moléquinho levantou-se como se nada fosse, e disse:

— Ah, se isso vae assim, então vamos fazer aqui rusga. Pega n'esta espada branca, que eu pego na preta.

O rapaz que já estava avisado pela mulher, disse:

— N'essa é que eu não caio; ou hade ser com a minha bengala, ou senão com a espada preta.

O moléquinho, que não queria os ossos amassados, antes quiz ceder a espada preta; vae o rapaz ao primeiro