Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/222

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa


contou-lhe tudo, e quando os irmãos olharam para os tições apagados, viram trez grossas barras de ouro. Pularam de contentes, e disseram:

— Deixa estar, que esta noite um de nós hade ir lá pedir mais tições.

Assim fizeram, e o irmão do meio trouxe de lá trez tições que eram, como já se sabe, trez barras de ouro. Á terceira noite foi lá o irmão mais velho, e tambem pediu os tições, e quando foi dia viram que eram das mesmas barras de ouro. Ficaram muito ricos e foram viver para a cidade; disse o mais velho:

— Havemos de mandar fazer um palacio para morarmos juntos.

Fez-se o palacio, que era muito rico, e depois de prompto metteram-se dentro. Passou um dia pela porta um mendigo e pediu-lhes esmola; mandaram-n'o entrar e deram-lhe de comer. Vae o velho assim que acaba de comer benzeu-se e começou a dar graças a Deus, e de repente todo o palacio se desfez como n'um sonho, e os trez irmãos e todos os que estavam com elles á meza acharam-se no meio da rua, como se n'aquelle logar nunca tivesse sido senão um monte de entulho.

(Arredores do Porto.)




75. PEDRO DE MALAS-ARTES

Uma pobre mulher tinha um filho, que era assim atolado, e porque nunca fazia nem dizia nada acertado, chamavam-lhe o Pedro das Malas-Artes. A mulher não tinha senão aquelle filho, e por isso estimava-o. Um dia trouxe a mulher para casa uma têa de linho, que tinha deitado, e disse:

— Este panno é para nós taparmos os nossos buraquinhos.