Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/223

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Assim que a mulher sahiu, e se demorou na missa, o filho foi á têa de linho, cortou-a em bocadinhos e começou a mettel-os pelos buracos das paredes do casebre. Quando a mãe chegou, elle disse-lhe muito contente:

— Mãe, olhe como estão tapados os nossos buraquinhos.

A mãe conheceu a tolice, lamentou os seus peccados, e fel-o prometter que nunca mais tornaria. No dia seguinte disse ao filho que fosse á feira comprar um bacoro e o trouxesse para casa. Esperou, esperou, e como o filho não acabava de vir, foi a vêr se o encontrava; achou-o caido no chão com o porco em cima de si, porque tinha entendido que o havia de trazer ás costas, e elle era bastante pezado. A mulher chorou, affligiu-se, e explicou:

— Isto traz-se para casa, com um cordelsinho amarrado pelo pé, e toca-se para diante com uma varinha.

Pedro de Malas-Artes, ouviu aquillo para seu governo; passados dias a mãe mandou-o que fosse á feira comprar um cantaro. Quando elle chegou a casa, trazia só a aza.

— Que é isto, Pedro? Onde está o cantaro que te mandei buscar.

Disse elle á mãe:

— Amarrei-lhe um cordelsinho pela aza, e toquei-o para diante com uma varinha; fiz como minha mãe me disse no outro dia.

A mãe tornou a lamentar-se, e disse-lhe:

— Se tu tivesses juizo trazias o cantaro na mão, ou então entre palha, n'algum carro que viesse para as nossas bandas.

Vae n'isto mandou-o a uma loja comprar um vintem de agulhas; Pedro de Malas-Artes trouxe as agulhas, e como ia passando um carro de palha aproveitou a occasião e despejou as agulhas entre a palha. Chega a casa, e pergunta-lhe a mãe pelas agulhas:

— Vem ahi no carro da palha do nosso visinho; botei-as lá, como minha mãe me disse no outro dia.