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muy devotamente e depois ouverom per ella muyta riqueza a serviço do senhor deus.

(Fl. 120.)




145. O DIABOO ESCUDEYRO

Em huuma terra avia huum cavalleyro que era homem boo e sua molher outrossy. Este cavaleyro por amor de deus e da gloriosa sua madre, mandou fazer spiritaaes e casas pera pobres e despendia en esto o que avia. E avia huum filho, e quando ouve de morrer, chamouo e recõmendoulhe os spiritaaes que fezera, e o escodeyro ficou com sua madre depois da morte de seu padre, e já quanto per vergonça de sua madre curava do que lhe seu padre encommendara; mas depois da morte de sua madre, começou elle a fazer maa vida e nom curava de semelhar seu padre, mas despendia em vaydade o que lhe seu padre e sua madre leyxarom.

Huum dia este escudeyro estando em sua casa veo a elle huum mancebo e disselhe que querya viver com elle e que o serviria muy bem, ca era homem fidalgo, e que sabia fazer todallas cousas que compriam a boo servidor. E o escudeyro recebeo em sua companhia e hia com elle muy a meude aa caça e tam bem sabia caçar que o escodeyro andava caçando com elle todo o dia ataa nocte per logares perigosos e fragosos. Em aquella terra avia huum bispo de boa vida que fora muito amigo d'aquelle cavaleyro, e de sua molher. E huum dia dizendo elle missa pelas almas delles foy-lhe demostrado per deus que aquelle servidor do escodeyro era diaboo. Entom o bispo foy veer o escudeyro e comeo com elle e o mancebo servia ante elles. E depois que comerom, perguntoulhe o bispo donde ouvera tal servidor. E o escudeyro gaboulho muyto. Entom o bispo mandou chamar o servidor, e elle nom querya vir ante elle. E o bispo mandou chamar ou-