Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/356

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— Nunca nós faremos boa matalotagem; porque quem tanto e com tal pressa madruga a comer, pouca prol me póde fazer. Não é esta a que me arma.

E sem fallar se deceu; e a velha vendoo vir tam prestes, lhe preguntou:

— Que vos parece, filho? Que cuidado de moça!

E querendo-lh’a gabar, porque imaginava que estaria fiando, e mais com a roca cheia, lhe disse:

— Vistes a pressa que tinha, e a habilidade das suas mãos, e o que já tinha despachado; pois eu vos prometto que d’aquellas enche e vasa sete no dia.

Querendo a velha dizer as rocadas da roca; mas o mancebo sem descobrir o que lhe vira fazer, respondeu:

— Senhora, não me arma; que se ella é tal, não na posso sustentar, e assim estê-se em vossa casa, e se as vasar e encher tantas vezes, sejam embora de vossa farinha.

E foi-se.

Trancoso, Contos e Historias de Proveito e Exemplo, P. I, conto 2.º)


153. A DONZELLA RECATADA

Em uma populosa villa havia uma dona honrada que tinha uma filha muito virtuosa, sesuda, recolhida, e amiga de seu trabalho, que per elle alcançava com que honestamente se mantinham ambas das portas a dentro, mui limpamente tratadas. Fazendo-se uma voda de uma sua parenta, assi se passaram mais de quatro mezes em recados até que a noiva lhe veiu a casa rogar que fosse um dia á sua, o que a moça acceitou por comprazer com a parenta; e chegando a noite, por ser menos vista, com um irmão mancebo que áquelle tempo viera de fóra da terra, saiu de sua casa para ir a casa da parenta. Na rua do proprio caminho por onde haviam de ir, estava um