Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/367

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matou o mancebo hum grande pavão, de muitos que ali se criavam, e cortados os pés, rabo, cabeça, o depennou e levou para sua casa; e tanto que chegou, disse a sua mulher:

— Senhora, o nebri do Duque foy ter á nossa quinta, e nos tem mortas muitas de nossas aves e em satisfação d'isso eu o matei, e o trago aqui depennado para que o ceêmos, vós e eu.

Ella, tanto que o ouviu se agastou muito, e disse:

— Pesa-me muito d'isso, que melhor fôra trazer-lh'o vivo ao Duque; d'aqui vos digo que me fizestes pesar, e eu não cearei d'elle, nem á mesa em que se comer.

E assi, ainda que o marido a chamou e lhe mostrou o pavão, gabando-o, dizendo-lhe:

— Senhora, olhae como estava gordo este nebri; vinde comer d'elle, que é tal como um gordo pavão.

Ella o não quiz vêr, nem aquella noite ceou com o marido, nem sem elle, tanto se entristeceu. Porém, passada esta noite, de ali por diante quando fallava com o marido parecia que era com uma isentidão sobeja, menos recolheita e mais despejada que d'antes, menos cortez e humilde do que sohia e por cima do hombro; no que tudo o marido attentou, tendo para si que já ella cuidava que lhe tinha o pé no pescoço em lhe saber o segredo do nebri, que na verdade estava vivo, e elle o visitava cada dia para lhe prover o que fosse necessario; e a mulher cuidava que o pavão que o marido ceou, como ouvistes, era verdadeiramente o nebri, como elle disse.

E o mancebo, desejoso de chegar ao cabo com tudo, uma tarde entrando pela porta sobre:

— Porque não está a mesa posta? que fazeis á janella? (Cousa que nunca elle perguntava, nem n'isso entendia.)

Ella lhe respondeu isenta:

— Que quereis vós agora para isso? (com um menosprezo no marido, e gravidade n'ella, que elle não quiz