Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/374

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ella lhe disse que da cebolla assada que aquelle homem ceiára, se foi a elle com grande ira, que o queria matar a punhadas, e sem falta o fizera, se o irmão o não escusára, dizendo:

— Eu vou com elle em demanda á côrte; se vos parece que vos tem culpa e é caso de o matar, como queres, hi commigo e accusae-o, e lá vos farão justiça.

Tanto que veiu a manhã, determinou o vendeiro ir accusal-o á côrte. E assi como o rico se poz a cavallo, partiram ambos para a cidade de Evora donde o vendeiro pretendia fazer enforcar aquelle pobre homem. E assi caminharam os dous a cavallo, e o pobre a pé; chovia, e avia chovido toda a noite passada, de maneira que o caminho tinha a logares lamas e atoleiros, porque era tempo de inverno. A esta conjuncção achou no proprio caminho um homem, que com uma azemela estava metido no olho de um grande lamarão de barro, tão pesado que não podia sahir, nem valer-se a si, nem á azemela, e ainda que bradou pelos que passavam a cavallo, nenhum quiz accudir. Até que chegou este pobre homem que caminhava a pé, e com muito mais trabalho que todos e de feito o ajudou com vontade a livrar d'aquella affronta; e fez de maneira com que, tirando o homem da pressa de sua pessoa, buscaram ambos mata que lançar aderredor da azemela para poder chegar a ella sem atollar. Trabalhou tanto o pobre homem n'isto, tirando a vezes pelos pés e mãos, e outras pelo cabresto e rabo, com a força que elle poz lhe ficaram nas mãos tantas sedas do rabo da azemela, que lhe davam grande fealdade. O dono, tanto que viu o defeito da azemela veiu a grandes brados com o pobre, dizendo que acinte lhe arrancára o rabo, e que lhe avia de pagar por justiça o defeito, e que sobre isso iria á côrte; e as si indo alcançou os outros que iam diante na primeira venda donde estavam pousados e lhe fez queixume do pobre que vinha a pé, muito triste de se vêr com tantos desastres como lhe aconteciam sem