Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/381

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— Assentae vivenda com algum senhor, e qualquer que fôr aquelle que vos acceitar honrae-o e servi-o com verdade e lealdade.

Despedido d'este letrado se foi a outro, e com as mesmas palavras que disse ao primeiro, lhe pediu seu conselho, declarando o conselho que já trazia, e lhe deu cincoenta cruzados, que o letrado tomou. E estando como o caso requeria, a cabo de outo dias, respondendo-lhe disse:

— Filho, presuposto, que aveis de ser tal qual o douto varão vos aconselhou, vos digo mais: Quando fordes poderoso, sêde misericordioso, não façaes com rigor tudo o que poderdes ainda que seja justiça. E sendo misericordioso no que fizerdes, sereis bem quisto de todos, tereis amigos, que em alguma necessidade, se a tiverdes, vos serão bons, e isto guardae sem falta.

E o mancebo se foi ao terceiro letrado, ao qual contou os conselhos dos dous que já ouvistes, dando-lhe os cincoenta cruzados, que acceitou; e estudando sobre o caso, conforme aos outros respondeu aos outo dias, e disse:

— Pois daes vosso dinheiro por conselhos, usae d'elles, que vos vae a vida em guardal-os. E alem d'elles digo, que se os amigos a que fizerdes bem vos agasalharem, acceitae seu gasalhado, e quando caminhardes andae de dia, não andeis de noite, ainda que seja uma pequena jornada; mas deixae-a pola menhã, que vos vae n'isto muito.

Estes foram os tres conselhos que os sabios deram a este mancebo, que se foi logo assentar vida com um senhor cidadão d'aquella cidade, ao qual sempre foi leal e sem lisonja como lhe foi aconselhado. Aconteceu, que vindo el Rey áquella terra, quiz este senhor por fruta nova (que então o era) mandar-lhe alguns figos, que os tinha, em certas figueiras temporãs muito boas; e mandou a ellas tres pagens, cada um com seu açafate, que os enchessem de figos, encommendando-lhes a limpeza