Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/423

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172. O THESOURO ESCONDIDO

Acho extremada aquella historia, que toca o Ausonio, poeta, em um seu epigramma: E é, que um homem desesperado com uma paixão que teve, se ia enforcar em um logar secreto, levando comsigo o baraço em que havia de deixar a vida. Succedeu, que com a força que fez, cahindo uma parte da terra n'aquelle logar, se lhe descobriu um thesouro, a cuja vista mudou logo o pensamento, e levando o que achára, deixou em seu logar o baraço que trazia. Vindo depois o que ali escondera, e achando-o menos, e em seu lugar a tentação da sua desventura, fez, porque perdera um thesouro, o que o outro deixou de fazer porque o achára; de modo que a um deu vida o ouro, a outro matou a avareza d'elle.

(Rodrigues Lobo, Côrte na Aldeia, dial. VII.)




173. ERRAMOS (E RAMOS)

Uma mulher não tratava bem de obras a honra de seu marido, e elle muyto mal de palavras a toda a sua visinhança; era o seu nome d'elle Ramos, e pondo-se um dia em praticas com a mulher começou a contar com ella todos os cornudos, que havia no seu bairro; a mulher com raiva de sua má natureza a cada passo dizia:

E Ramos, marido; tornae a contar, que falta um.

Elle, que entendia mal o remoque, sem se metter na conta, a tornava a fazer de novo muitas vezes.

(Rodrigues Lobo, Côrte na Aldeia, dial. XI, p. 156.)