Página:Contos Tradicionaes do Povo Portuguez.pdf/63

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Quando já todos tinham entrado para a sala, faltava só ella; a velha disse-lhe:

— Vae agora tu.

A filha obedeceu, mais ia muito triste por vêr-se tão medonha. Quando ia pelo corredor do palacio, a mãe disse-lhe cá de longe:

— Olha para traz. – E assim que a filha virou a cara, continuou: – Fica com a tua formosura. Mas não te esqueças de metteres nas mangas do vestido todos os bocadinhos de toucinho que puderes para me dar.

Então ella entrou na sala pelo braço do marido, e todos ficaram pasmados. A côrte toda confessou que ella é que era a mais linda, e d’ali foram todos para a mesa do banquete. Emquanto estiveram jantando a menina não fazia senão metter bocadinhos de toucinho nas mangas do vestido; as outras duas, que a viam fazer aquillo, trataram de fazer o mesmo pensando que era moda. Acabado o jantar, começaram as danças, e a rainha ao vêr o chão todo besuntado de gordura, e que a cada passo se escorregava em bocados de toucinho, perguntou quem é que fizera aquella porcaria. As damas disseram que o viram fazer á princeza herdeira, e por isso fizeram o mesmo. Começou cada uma a sacudir as mangas dos vestidos, e das mangas da menina começaram a cair aljofres e diamantes misturados com flôres; as outras envergonhadas botaram-se pelas janellas fóra, pelas escadas, corridas, e a que chamavam cara de boi é que veio a ser a rainha, porque o rei entregou a corôa ao filho.

(Algarve — Faro.)

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2. O VELHO QUERECAS

Eram tres irmãs, muito pobres, que viviam do seu trabalho aturado. N’aquella terra havia uma casa em que