Página:Diva - perfil de mulher.djvu/89

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as tardes como no regaço da felicidade. Trabalhava então com entusiasmo. Os júbilos que vertiam de minha alma sobrariam à vida mais pródiga; eu tinha ventura em profusão, que chegaria bem para encher duas existências. E entretanto não ousara ainda confessar a Emília o meu amor!

Como as plantas mimosas, a minha ventura só floria na sombra. Era na intimidade e no isolamento que Emília vertia para mim os perfumes de sua alma. Na sala, apesar de marcar-me com a distinção sutil e delicada que é um tato do coração, contudo eu sentia que o seu olhar soberano me confundia entre a multidão, sobre que ela reinava pela formosura. As noites em que do seu lábio altivo fluíam ondas de fino sarcasmo, nem a minha submissa admiração achava graça perante ela.

Chegou a véspera de Corpo de Deus. Emília estava sentada ao meu lado:

— Amanhã não vou à cidade — disse-me ela. — Se o dia estiver bonito como o de hoje, pretendo fazer um passeio, que há muito tempo não faço. Quer acompanhar-me?

— Ia suplicar-lhe esse favor, mas não me animava.

— Iremos até o alto da montanha. Quando eu percorria só essas veredas escarpadas, os rumores da mata, as grandes sombras que oscilam pelas encostas, o ermo da profunda solidão, me faziam cismar, e sentir coisas que eu não compreendia. Desejava ter ali, perto de mim, alguém