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ENEIDA. — LIVRO I.


A ara homecida, os retalhados peitos
Desnuda, e á patria intíma-lhe que fuja:
Prata immensa e ouro velho, soterrados,
Para o exilio descobre. Ella, inquieta,
       380Apressa a fuga, e attrahe os descontentes
Que ou rancor ao tyranno ou medo instiga;
Acaso prestes naus, manda assaltal-as;
Dos thesouros do avaro carregadas
Empégam-se: a mulher conduz a empresa!
       385Chegam d’alta Carthago onde o castello
Verás medrando agora e ingentes muros:
Mercam solo (do feito o alcunham Byrsa)
Quanto um coiro taurino abranja em tiras.
Mas vós-outros quem sois? donde he que vindes?
       390Que regiões buscais?» Elle ás perguntas
Esta resposta suspirando arranca:
«Ó déa, se recorro á prima origem,
E annaes de angústias não te pejam, Vesper
No Olympo encerra o dia antesque eu finde.
       395Da antiga Troia (se has notícia della),
Vagos no equoreo campo, arremessou-nos
Casual tempestade ás libyas costas.
Enéas sou, com fama alêm dos astros,
Que livrei de hostil garra os meus penates,
       400E piedoso os transporto á patria Ausonia;
Do summo Jove a geração procuro.
Por guia a deusa mãe, submisso aos fados,
Em vinte naus commetto o phrygio ponto;
Rôtas do Euro e das ondas, restam sete.
       405Pobre, ignoto, percorro africos ermos,
D’Asia e d’Europa excluso...» Nem mais Venus
Lamentos comportou, na dôr o atalha:

«Quem sejas, creio, não do céo malquisto,
Gozas d’aura vital, que a Tyro aportas.
       410Eia, ao regio palacio te encaminha.