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ENEIDA. — NOTAS AO LIVRO I.


passagem, admirada ha mais de 18 seculos. Concordo com elle no louvor ao pae da poesia epica: nada ha mais simples e preciso do que essa descripção na Odysséa. O crítico porêm não considerou a differença do assumpto: Ulysses, ainda que a Ithaca chegasse nu, como arribara á ilha dos Pheaces, tinha comsigo tudo que havia mister para attingir o seu fim, isto he para castigar os pretendentes e tomar conta de seu reino; mas Enéas, que ia fundar um imperio, se nu abordasse a Italia, sem gente, sem o que a tanto custo salvara das ruínas de Troia, nada poderia obter, e estava gorada a Eneida. Esta reflexão basta para justificar o poeta de julgar lamentavel a perda des richesses troyennes qui flottent sur les ondes: as riquezas, entre as quaes iam alfaias, armaduras e mil objectos, pertencentes a amigos e a guerreiros troianos, alêm de serem necessarias aos fugitivos, eram outras tantas lembranças da patria, cuja perda se devia lastimar. Assim, a lamentação de Virgilio, que se põe no lugar do heroe, não recahe sôbre cousas inanimadas de preferencia à ces Troyens qui nagent sur la lame immense, mas sôbre as pessoas queridas que esses objectos representavam, mas sôbre toda a sociedade troiana. Virgilio morreu sem limar a sua obra, e só a communicava a poucos: em sua vida pois não houve professor de grammatica que dicesse a seus discipulos: Ne vous semble-t-il pas voir la montagne d’eau s’écrouler sur le vaisseau d’Oronte? Não houve então ninguem que dicesse o mais que Mr. Nisard, com uma especie de fino gracejo, põe na bôca dos mestres de latim: o crítico deixou o seculo de Augusto, e collocou-se no nosso entre os pedantes das escolas; sem reflectir que esses hemistichios foram sempre saboreados pelos homens de melhor tacto em todos os seculos, e que a admiração que taes bellezas inspiram, passou dos sabios aos espiritos ordinarios. — Não vejo tambem porque l’image du pilote tombant la tête la première ne touche point, d’abord parce que c’est un incident imité d’Homère. He por ventura da natureza da imitação o nunca poder commover? Não pensaram assim Ovidio, Dante, Camões, Tasso, Milton, Voltaire, Chateaubriand; e o voto de ingenhos taes he para mim da maior excepção. Mr. Nisard não entendeu o ingens a vertice pontus: creu que a mareta veio da pôpa. Virgilio, que em não poucas viagens tinha observado os phenomenos do mar, sabia como o escarcéo que vem d’avante he mais perigoso, e quanto he raro sossobrar a embarcação que as vagas batem em pôpa. — Para justificar o poeta marinheiro, como o denomina M. Jal, autor da Archéologie navale, deixemos fallar este erudito, na sua breve mas profunda obra o Virgilius nauticus: «Il s’agit cette fois d’une lame immense qui, venant de la proue du navire d’Oronte, et tombant de haut (a vertice me paraît avoir ce double sens; il fortifie ingens, em même temps qu’il est en opposition avec puppim, comme extrémité du vaisseau), déferle sur la poupe,