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HISTORIAS DE REIS E PRINCIPES


«Tomou el-rei amizade illicita com D. Anna de Moura, freira de Odivellas; fazia-lhe continuas assistencias com grande indecencia, e geral reprovação de toda a côrte. O dia em que D. Anna de Moura fazia annos, foi el-rei tourear no pateo de Odivellas: deu uma grande queda, de que esteve sangrado, fazendo-lhe D. Anna de Moura a fineza de se sangrar tambem, lhe mandou um grande presente, e quando a tornou a vêr, lhe disse que desejava fazel-a rainha de Portugal.» (Vida d'elrei D. Affonso vi, publicada por Camillo Castello Branco, e attribuida ao duque de Cadaval).

Pensa o leitor que esta dupla sangria foi uma galanteria original? Pois está enganado.

No auto do Mouro encantado, do quinhentista Antonio Prestes, vem citado o exemplo que a freira de Odivellas imitou:

... Foi como o meu,
que sou quem o arremendou
na guerra que a Pirro deu;
sendo o vencimento seu
uma mulher captivou
da qual vindo-se a vencer
por formosa, elle a amava,
cousa brava;
chegou ella a adoecer,
e se ella se sangrava
sangrava-se elle, que fava
de amor póde mais ser?

Decididamente: não ha nada novo n'este mundo.