Página:O Barao de Lavos (1908).djvu/92

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa


— Temos tido serões no Ministério... até às 11 horas. De modo que pedi dispensa.
— Andou muito bem. —
Oh! O Estado não periga só porque deixei de enfiar por umas horas a clássica manga de alpaca; e eu lucrei imenso na deixar por esta noite dobrada ao canto da gaveta. O meu egoísmo, preferindo ao bastardo mazorro dos ofícios a palavra cordial dos meus amigos, creio que é, a mais não poder ser, justificado.
— O nosso egoísmo é que nunca lhe perdoaria, se faltasse... — contrariou amável, erguendo o rosto para Henrique, a mirabolante viúva, em cujos óculos de ouro centelharam duas miniaturas muito nítidas do lustre da sala, acendidas pela mesma reverberação que incendiava numa fosforescência de alga as esmeraldas do grande pente de tartaruga, erguido como um diadema na soberba trança grisalha que num jeito ateniense lhe coroava a cabeça.

Dentro, na casa do fumo:

— Sinto-me bem esta noite, sim senhores! — comunicava o coronel aos homens, bebericando num copo de água chalada.
— Pudera! — acudiu Alípio. — Com uma ovação como a que teve!
— Não é isso! — contestou Militão com um desdém superior. — É que esta manhã tivemos um trabalhão no quartel com aquele caso, que veio nas folhas, de um cabo que me esmurrou um primeiro-sargento. Não leram?... O auto do corpo de delito não tinha esclarecido bem a causa do crime. Levámos hoje o dia numas esmiuçadelas complicadas que nem seiscentos diabos. Fui jantar com dores de cabeça. Mas, afinal, a coisa apurou-se. E foi o que eu supus desde o princípio...