Página:O Crime do Padre Amaro.djvu/169

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cobri-la de lama! E na Sé, ao sair da missa, regalar-se de a ver passar encolhida no seu mantelete preto, escorraçada de todos, enquanto ele, à porta, de propósito, conversaria com a mulher do governador civil e seria galante com a baronesa de Via-Clara!... Depois pregaria um grande sermão, na quaresma, e ela ouviria dizer, na arcada, nas lojas: "Grande homem, o padre Amaro!". Tornar-se-ia ambicioso, intrigaria, e, protegido pela Sra. condessa de Ribamar, subiria nas dignidades eclesiásticas: o que pensaria ela quando o visse um dia bispo de Leiria, pálido e interessante na sua mitra toda dourada, passando, seguido dos incensadores, ao longo da nave da Sé, entre um povo ajoelhado e penitente, sob os roucos cantos do órgão? E ela o que seria então? Uma magra criatura murcha, embrulhada num xale barato! E o Sr. João Eduardo, o escolhido de agora, o esposo? Seria um pobre amanuense mal pago, com uma quinzena roçada, os dedos queimados do cigarro, curvado sobre o seu papel almaço, imperceptível na terra, adulando alto e invejando baixo! E ele, bispo, na vasta escadaria hierárquica que sobe até ao Céu, estaria já muito para cima dos homens, na zona de luz que faz a face de Deus-Padre! - E seria par do reino, e os padres da sua diocese tremeriam de o ver franzir a testa!

Na igreja, ao lado, bateram devagar dez horas.

Que faria ela àquela hora? pensava. Costurava decerto, na sala de jantar: estava o escrevente: jogavam a bisca, riam - ela roçava-lhe talvez com o pé, no escuro, debaixo da mesa. Recordou o seu pé, o bocadinho da meia que vira quando ela saltava as lamas na quinta, e essa curiosidade inflamada