Página:O livro de Esopo fabulario português medieval.pdf/100

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maneira, moderação: XXXVI, 13. O passo é: «deuemos auer maneira com discriçom», i. é: moderação discreta.

mango, cabo: XXXIX, 2, 3 (manguo). Trata-se do mango de um machado.

manhãa, manhã: XLVII, 17. A expressão de manhãa nesse passo significa «amanhã», pois que está contraposta a oje.

mantiimento, mantimento, sustento, comida: XXVII, 12 (mantijmento). — Os ii são etymologicos, pois esta fórma está por *manteimento, de manteer; cfr. hesp. mantenimiento. Tambem em Azurara se encontra mantiimento[1].

marteiro, martyrio: XLIII, 17 (marteyro).

matar. Na expressão matar-se com ell, XXVI, 4, matar-se significa «bater-se»; cfr. hesp. matarse con uno «reñir», «pelear con él»[2].

medês, mesmo: II, 2 (aquell medes); XXXIX, 15 (ell medes); XLI, 33 (assy medes). Em todos esses exs. medês reforça o pronome ou adverbio a que vem junto. Cfr. no Leal Conselheiro, p. 27, esso medes, e p. 46, aquel medes. Na Rev. Lusit., VIII, 9, me referi a este pronome.

meesmo, mesmo: XL, 30. — Os ee são etymologicos; cfr. ital. medesimo.

meestre, mestre: XVII, 16. — Os ee são etymologicos: arc. maestre < lat. ma(g)istru-. Todavia maestre não provém directamente do latim, como o mostra o -e[3].

meezinha, remedio: XXVIII, 4. Cfr. tambem Leal Conselheiro, p. 234: «por as esmollas recebem meezynha as nossas chagas». Ainda hoje se usa mèzinha no sentido de remedio caseiro («fazer uma mèzinha», — Beira). Em Trás-os-Montes (Norte) essa palavra significa virtude medicinal («tal herva tem mèzinha»). Tambem em provençal achamos mecina no sentido de remedio: «Al vostre mal
  1. Cortesão, Subsidios para um Dicc., s. v.
  2. Dicc. de la Leng. Cast. (da Acad. Hesp.), s. v.
  3. A fórma normal em port. devia ser maestro, como em hesp. e ital. A par de maestro, ha maestre em hesp., mas noutro sentido. Provavelmente o nosso obsoleto maestre, d’onde saiu meestre, e por fim mestre, vem do hesp. maestre ou do fr. arc. maiestre. De facto, nos exemplos que conheço do uso antigo de mestre em português, como mestre-sala, mestre no sentido de «médico», mestre do Templo, etc., a palavra relaciona-se com instituições sociaes, e podia pois vir de fóra com ellas. No sentido moderno de «mecanico», dizia-se antigamente mesteiral.