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FABULARIO PORTUGUÊS


E depois que ouuerom o rrey na çidade, derom-lhe comprido poder que fezesse todo aquello que quysesse. E [este][1] rrey começou de fazer cruell justiça: a hũus emforcaua, a outros cortaua as cabeças, a outros fazia tirar os olhos. E o poboo, veemdo aquesto, começaua de braadar e chorar, dizemdo: «Mal fezemos! Que milhor viujamos da primeyra que aguora!».





       [Fl. 36-v.]Em esta estoria o doutor emssina aaquelles que bem estam, que sse nom deuem de mudar, porque muytas vezes o homem cuyda de melhorar, e pejora; e o homem que he em ssua liberdade nom sse deue subjuguar, sse liure póde viuer, ca no mumdo nom ha moor thesouro que a liberdade e ssaude.


L. [As rãs que pedem um senhor a Jove]

       [Fl. 37-r.][C]omtasse que hũu tempo as rrãas viviam em gramde liberdade, e muyto a sseu talemte, e nom sse comtentauam d’esta boa vida; forom-sse ao<s> deus Jouis e rrogarom no que lhe desse hũu ssenhor: E o dicto Jouis rryo e escarneçeo d’ellas, e fez que as nom ouvia.

E outra vez tornarom a ell, e o<s> deus Jouis fez deytar hũa traue em a augua, e ellas ouuerom gram medo e esteuerom quedas e meterom as cabeças do fumdo da augua; e depois que perderom[2] o medo, alçarom as cabeças e virom esta traue e acheguarom-sse a ella e ssobirom-sse em çima della: e veemdo que nom falaua nem sse movia, escarneçiam d’ella.

Tornarom ao deus Jouis, rrogamdo que lhe desse mjlhor[3] ssenhor: e o deus Jouis com gramde ssanha lhe mandou hũa gramde coobra que as comia cada hũu dia. E estas rrãas pidiam misericordia[4] ao deus Jouis que as liurasse da boca d’esta ser[pe]mte[5]; e pouco lhe prestaua pidir misericordia[6], ca o de[us] Jo[uis] nom as queria ouuir nem liurar.





Em aquesta estoria o doutor nos emsiua e diz que ssom algũas persoas[7] que nom conhocem e bem quamdo o ham, mays amtes ho

  1. O ms. está roto aqui; todavia vêem-se restos de lettras que supponho serem es, e por isso transcrevi por este e não por o (talvez este estivesse em abreviatura, i. é, est’, — como noutros muitos logares; o espaço faz suppôr isso).
  2. Aqui está riscada a palavra em.
  3. A linha termina no meio da palavra: mj-.
  4. Em abreviatura: mĩa.
  5. No logar de pe o ms. está roto. O mesmo succede com relação ás palavras que adiante ponho entre colchetes.
  6. Tambem mĩa em abreviatura, como acima.
  7. No ms. psoas com o p cortado na haste.