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Página:O precursor do abolicionismo no Brasil.pdf/156

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SUD MENNUCCI

O abolicionista, aliás, os provocaria insensivelmente, inconcientemente esses odios contra si mesmo. Não estava nele, era uma manifestação celular: o direito á liberdade, Gama considerava-o como uma função organica, como a fatalidade biologica da respiração, da alimentação ou da reprodução humanas. Refere-se uma anedota do tempo, acontecida com ele, que é particularmente caracteristica dessa sua maneira de pensar e de sentir.

Entrou-lhe um dia, pelo escritorio a dentro, um negro que desejava libertar-se e que ia ali entregar-lhe o montante do pecúlio necessário para que Gama tratasse de alforriá-lo. Enquanto o preto expunha o seu caso, aparece o senhor, que por sinal era amigo do advogado. Estava visivelmente inquieto, triste, abatido. E entrando em explicações, pergunta ao negro porque pretende abandoná-lo, a ele que sempre lhe fôra, mais que senhor, um pai estremoso, que sempre the déra trato e carinho igual aos de seus filhos.

— Porque queres deixar-me, abandonando o cativeiro de um homem bom como tenho sido, arriscando-te a seres infeliz quando estiveres sosinho pela vida?

O escravo não respondia. Não tinha o que reclamar, pois que o amo fôra sempre, mais que humano, solicito e bondoso. O senhor não se conformava com a atitude do escravo:

— Porque me abandonas? Que é que te falta lá em casa? Dize... fala.,,