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Página:O precursor do abolicionismo no Brasil.pdf/157

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O PRECURSOR DO ABOLICIONISMO NO BRASIL
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— Falta-lhe — interveiu Gama, dando uma palmada no ombro do preto — falta-lhe o direito de ser infeliz onde, quando e como queira!

E libertou o negro.

Aí está um traço fundamental para a compreensão daquela alma, traço que fala mais alto que toda uma serie de retorcidas divagações acerca de sua psicologia. A liberdade era, para ele, uma cousa tão acima de qualquer bem terreno, que valia o risco de todas as agruras da existência a luta, o afan, os dissabores, o esforço mal recompensado, a incompreensão alheia, as agonias crueis, até a fome. Valia mesmo a morte.

Ha dele uma pagina empolgante, repleta de santa indignação, escrita já no fim da vida. E embora doente e alquebrado, a revolta é sempre a mesma, intensa, estuante, vivíssima, brotando aos borbotões de seu coração aflito. Foi publicada na “Gazeta do Povo”, como carta endereçada ao seu velho amigo e antigo diretor do “O Ipiranga”, o notavel jornalista Ferreira de Menezes. Nela, a proposito do assassinato do filho de um fazendeiro, no municipio fluminense de Entre Rios, fato recente que determinara reação brutalissima, comenta as cênas de horror, os verdadeiros linchamentos a que davam origem, em nossa terra tambem, os crimes dos escravos contra os senhores.

E’ trabalho pouquissimo conhecido e que, apesar de se haver reproduzido, alguns dias mais tarde, na secção paga da então “Província de São Paulo”, edição de 18 de dezembro de 1880, nunca teve repercussão. Aqui está: