Página:Obras de Manoel Antonio Alvares de Azevedo v2.djvu/315

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— Muito bem: gosto de ti, disse o velho lobo do mar. Agora que estamos conhecidos dize-me teu nome e tua história.

— Meu nome é Bertram. Minha história? escutai: O passado é um túmulo! Perguntai ao sepulcro a historia do cadáver! guarda o segredo ele dir-vos-á apenas que tem no seio um corpo que se corrompe! tereis sobre a lousa um nome — e não mais!

O comandante franziu as sobrancelhas, e passou adiante para comandar a manobra.

O comandante trazia a bordo uma bela moça. Criatura pálida, parecera a um poeta o anjo da esperança adormecendo esquecido entre as ondas. Os marinheiros a respeitavam: quando pelas noites de lua ela repousava o braço na amurada e a face na mão aqueles que passavam junto dela se descobriam respeitosos. Nunca ninguém lhe vira olhares de orgulho, nem lhe ouvira palavras de cólera: era uma santa.

Era a mulher do comandante.

Entre aquele homem brutal e valente, rei bravio ao alto mar, esposado, como os Doges de Veneza ao Adriático, a sua garrida corveta — entre aquele homem pois e aquela mandona havia um amor de homem como palpita o peito que longas noites abriu-se as luas do oceano solitário, que adormeceu pensando nela ao frio das vagas e ao calor dos trópicos, que suspirou nas horas de quarto, alta noite na amurada do navio, lembrando-a nos nevoeiros da cerração, nas nuvens da tarde... Pobres doidos!