Página:Obras poeticas de Claudio Manoel da Costa (Glauceste Saturnio) - Tomo II.djvu/231

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Disse; e trepando a penha, ao chão contrário
Desesperado já se precipita.
Teriféia de longe aos índios grita,
E alegre da vitória deixa o monte;
Não há quem visse, ou quem a história conte:
Mas da homicida bárbara informada
Já torna Eulinda; furiosa brada
A Aldeia, por vingar tanta maldade;
Sobre nós faz cair a atrocidade
Do delito, e abrasando a Aldeia inteira
De oculta chama, que ateou ligeira,
Ministros nos faz crer deste atentado:
A fuga nos salvou, nem avisado
Serias de um tão trágico sucesso,
Se de Argasso um rival, que a tanto preço
Eulinda amava, então não descobrira
Tudo o que a Eulinda e a Teriféia ouvira.

Calou Fialho; em vão susteve o pranto
Albuquerque; e notando que o quebranto
De Garcia a rendê-lo se avançava,
Consolando seu mal, assim falava:
Jamais se viu segura uma alegria,
Nem estável jamais pôde algum dia
Sustentar-se a fortuna de um ditoso:
Espere sempre o inverno proceloso
Aquele por quem passa a primavera;
Amor que em brandas almas só pudera
Empregar toda a força de seus tiros,
Fará que troque as glórias em suspiros
Aquele que em vão crera aos desenganos;
Ó vós, felices, vós, que os doces anos
Entregais à virtude, eu vos agouro
O sempre imarcescível, fresco louro,
Que vos há de levar na longa idade
Muito além da cansada humanidade.