Página:Poesias eroticas, burlescas e satyricas.djvu/209

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
205
notas


Esse idyllio, que tens em gran portento,
Pensas te salva da vorage eterna?
Falle o Tritão, que tu fizeste amphibio,
Pondo-o na terra, namorando a nympha.
Sonetos, glosas lhe attrahis louvores,
Cheios de vento, que empanturra o Paula;
Pècco epigramma, que afugenta o riso,
Fabulas tuas, traducções franjadas;
Essas cantatas de Parny são roubos,
Em que sedento de invenção campéas.
Mas, Tantalo phebêo, em vão cobiças
Á custa alheia eternisar teu nome.
Busco debalde acção nas obras tuas,
Que o Tesejado fim demande altiva;
És emprestado vate: Italia o diga,
Falle a Gallia tambem, d′onde saquêas
Sem ter pejo os relampagos de gloria.
Tentas medir-te c′o soberbo Ovidio.
Na apoquentada epigraphe acoutado
D′essa sem par metamorphose eterna,
Aonde o triste pensamento enjòa.
Pela enfadonha somnolenta phrase!
Nas satyras não fallo venenosas,
Em que impera a calumnia, socia tua.
Ou te divertes com tremendas caras.
Com trombas, que se vão sumindo em lenços.
Ou proferindo, como sempre, á tòa
Mais outros chochos palavrões ensossos,
Com que ha pouco louvaste o Ersaunio vêrme.
Porque fallar só d′elle é dar-lhe a vida.