Pacotilha poetica/Aonde verá com gosto a quem lhe ama

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Pacotilha poetica
Aonde verá com gosto a quem lhe ama


SENHORAS

2 Na Penha, na linda festa
   Que está já para chegar;
   Que ventura, sem ajustes
   Haveis de lá o encontrar.

3 N'uma boa patuscada
   Na cascata da Tijuca,
   Sem pensardes, e com gosto,
   Enoontrareis certo Juca.

4 Só nos canos da Carioca
   Onde elle vai patuscar ;
   Cuidado, que o bom do moço
   Ha de de[s]gosto exultar!

5 Vós o vêdes sempre e sempre;
   Onde quer o coração
   Vão as pernas sem mui custo,
   Após de amor a attracção.

6 Na vossa janella sempre
   O vedes passar chibante:
   Que escolha? O moço é bonito,
   Mas não passa d'um tratante!

7 Olé! na missa não o vêdes,
   Não tendes disso prazer?
   Em continua distracção
   Esqueceis santo dever!

HOMENS

2 Em Petropolis n'um hotel,
  Ou á tarde passeando
  Pela margem dos canaes,
  Meiga e bella se mostrando,

3 Essa a quem vós vedes sempre
  Em o largo do Capim,
  Jámais muda de lugar,
  Porque vende mendobim.

4 Na visitação das igrejas
  A deveis sempre encontrar;
  Mas cuidado, que as igrejas
  Se não devem profanar.

5 Com gosto, senhor, a vêdes
  Com seu rosto de Guiné,
  Vendendo suas pipocas
  La pelo largo da Sé.

6 Não as vêdes sempre bellas
  No Rio das Laranjeiras?
  Córais de pejo? E é falso
  Que gostais das lavadeiras?

7 Na cadêa, pois, contente
  Tomareis disso vingança;
  Ora a Saloia fez bem
  Em desprezar tal criança.

SENHORAS

8 Nunca, senhora, nunca
   Tereis tal satisfação,
   Pois esse a quem tanto amastes
   Já existe na Correcção!

9 Esperai, que ainda um dia
   Vel-o-heis numa funcçâo
   Tal e qual as moças gostam,
   Figura de papelão!

10 N'uma chacara, senhora,
     No morro de Santa Thereza,
     Mais temei que sendo bello,
     Tem no peito assaz dureza,

11 N'um convento vel-o-heis,
     Porém vós freira sereis;
     E como elle será padre,
     Tudo lhe confessareis,

12 Com gosto nunca o vereis,
     Que elle vive desgostoso;
     Passa seus dias e noites.
     Pensando em vós pezaroso.

HOMENS

8 Nas Bellas-Artes vereis
  O seu retrato em pintura;
  Tão bella, que essa illusão
  Fará a vossa ventura.

9 Não sei; sóis tão inconstante,
  Tão vário no vosso amor,
  Que nem uma só amante
  Se quer tendes em rigor.

10 Na Tijuca, dentro d'agua
  Como uma nympha formosa,
  Como se desabrochasse
  Lá das aguas linda rosa!

11 Basta, senhor, de namoro,
  Que já muito namorastes,
  Pois emquanto vos tocaram
  Por ganhar tempo dansastes.

12 Se não a vêdes na janella
  Lá pelos confins da rua,
  A vereis com muito gosto
  Lá pelo mundo da lua.