Pacotilha poetica/O que dirão a seu respeito os jornaes

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Pacotilha poetica
O que dirão a seu respeito os jornaes


SENHORAS

2 Como mulher de um ministro
  Oh! muitos de vós dirão;
  Pois em vós um bom empenho
  Por qualquer mimo terão.

3 Dirão cobras e lagartos
  De vossa tão bella vida,
  Tudo, senhora, por serdes
  Na politica mettida.

4 Dirão que fostes mui bella,
  Mui virtuosa consorte,
  Que tinheis muito talento,
  Mas depois de vossa morte!

5 Por negocio de namoros
  E' para mal de peccados
  Dirão que fostes levada
  Ao tribunal dos jurados.

6 Publicarão sobre vós
  Uma pequena noticia,
  Achareis o vosso nome
  Em as partes da policia.

7 Que sois bella e é verdade,
  Pois mostraram ser exacto
  Quando lá nas Bellas-Artes
  Se expoz o vosso retrato.

HOMENS

2 Elles p'ra-vossa calumnia
  A uma hão de dizer
  O que não lembra ao diabo,
  O que esquece á mulher.

3 N'um jornal um elogio
  Honroso te sahirá,
  Porém aprompta os cobrinhos,
  Que a conta te mandará.

4 Certa sujeita que em zelos
  Contra vós continua arde,
  Mil injurias vos prepara
  Em o Correio da Tarde.

5 Pelo Jornal do Commercio,
  Como quasi sempre vê-se,
  A uma casa chamado
  Sereis «por vosso interesse.»

6 Nos annuncios do Diario
  Vos vereis inda atacado
  Por um pai a quem tereis
  A bella filha roubado.

7 Chamar-vos-hão caloteiro,
  E o mais que não sei não;
  Se sois um vil, meu amigo,
  Por certo terão razão.

SENHORAS

8 Dirão que comvosco o tempo
  A natureza perdeu,
  Que se fôrdes ficareis
  Para sempre no Museu.

9 Que um moço de Nictheroy
  Do barco cahio no mar;
  Por querer? Sim. E a causa?
  Senhora, por vos amar.

10 No Diario encontrareis
  Sobre vós boa noticia!
  Sobre o que? Senhora, ha de
  Por força ser mui propicia.

11 Dirão que sois perdição
  De muito moço bonito;
  N'um folhetim de um perdido
  Achareis tudo descripto.

12 Que o marido alçando a dextra
  Ergue o punhal n'um momento,
  Mas reflecte, e vos arrasta
  A encerrar-vos em convento.

HOMENS

8 Dirão... Mas eia, caluda,
  Para que vos causar medo,
  Se aquella historia de amores
  Ainda está em segredo?

9 Ora dirão tudo quanto
  Tendes feito de melhor..
  Depois os pobres tambem
  Virão...ai tanto peior.

10 Esperai! tende prudencia,
  Que um annuncio fatal
  Ha de cedo declarar
  Certa historia de um punhal.

11 Dirão que sois, meu marmanjo,
  Um refinado ladrão...
  Que a certa moça roubastes
  Para sempre o coração.

12 Nada dirão, meu amigo,
  Que em tudo sois um casmurro,
  Tão digno de sella e freio
  Como tudo quanto é burro.