Pacotilha poetica/Por quem na morte deve ser chorado

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Pacotilha poetica
Por quem na morte deve ser chorado


SENHORAS

2 Por um velhinho, senhora,
  Que será vosso marido;
  Mas quando será, senhora,
  Se o tempo inda é tão comprido?

3 Por elle — que vos adora,
  Quando de vós não se esquece,
  Pois outra que não sois vós
  O coração lhe entristece.

4 Por vossas caras amigas,
  Que sentirão na verdade
  Ver morta aquella que é hoje
  O arrimo da humanidade.

5 Ha quem vos ame, menina,
  Lá no Sacco da Gambôa;
  Depois que morta sejais
  Vos chorará tal pessoa.

6 Por um que muito devoto
  Em pedir esmolas é,
  Que vos adora em segredo,
  Ah! é o padre Quelé.

7 Dobrarão os sinos todos,
  Os padres lá rezarão,
  Por dinheiro — que de graça
  Chorada não sereis, não.

HOMENS

2 Por ella, essa menina
  Que vêdes n'um camarote!
  Chorará porque sois rico,
  Porque ella não tem dote.

3 Por quem vós não sabeis hoje
  O que lhe deveis pagar,
  Pois até mesmo ao coveiro
  Não tereis com que saldar.

4 Adeus minhas encommendas!
  Que pergunta extravagante!
  Nem parentes, nem amigos
  Chorarão por um tratante.

5 Se não mente o povo inteiro,
  E se a fama é verdadeira,
  Por aquella sujeitinha
  Que hoje é vossa lavadeira.

6 Pela preta dos pasteis
  Que vos traz aquebrantado,
  E que jura por seus olhos
  Já vos ter na mão fechado.

7 Pela mulher? Isso não!
  Por uma judia? Sim!
  Aquella é victima, e esta
  E' que está no galarim.

SENHORAS

8 Por elle! por elle só,
   E ha de esconder o pranto,
   Chorando só lá n'um ermo
   O seu bem, o seu encanto!

9 Por vossos filhos, que certo
   Ah! muito vos amarão.
   Pois digna sois de alta estima
   Por tão meigo coração.

10 Por um pobre e triste ente
     Que por vós foi desprezado,
     Não fazendo caso delle
     Sendo vosso namorado.

11 Gemerá a triste brisa
     Pela triste solidão,
     As aves, o mar e tudo,
     Menos do homem o coração!

12 Sereis chorada, senhora,
     Pelos tristissimos pobres;
     Comprareis as suas lagrimas
     A peso de vossos cobres?

HOMENS

8 Sereis como Magalhães,
  Dos Suspiros o cantor,
  Que até cantando a Belleza
  Desdenhado era de amor!

9 Como sois em tudo bom,
  Sempre digno de louvor,
  Sereis na morte chorado
  Pela amizade e o amor!

10 Por ninguem! A ingrata amante
   Nem um ai ha de soltar!
   Eia pois, fiai-vos nella!
   Ah! não a deveis amar!

11 Meu cara de lagartixa,
   Eu vol-o digo com dor,
   Que só por velha beata,
   Que por vós morre de amor.

12 Sereis chorado, senhor,
   Sereis bem, e porque não?
   Mas ha de ser, meu amigo,
   Só pelo bom sacristão.