Pacotilha poetica/Porque cousa é que gosta de quem gosta

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Pacotilha poetica
Porque cousa é que gosta de quem gosta


SENHORAS

2 Não sei! O certo é qu'o homem
  Sempre é homem de ventura!
  Pois gostais de uma lagartixa
  Com pernas de saracura.

3 Mal o vistes que jurastes
  Dar-lhe o vosso coração!
  Gostastes delle por vêl-o
  Dansar bem o muquirão!

4 Não sei, o triste do amante
  Nada possue de bonito,
  Tem o focinho de Anta
  E as pernas de piriquito.

5 Não sei, porém vós sabeis
  Que sois em tudo feliz;
  Gaiata! O moço é pobrinho,
  Porém rico de nariz!

6 Eu digo... porém caluda!
  Elle aqui está tão contente
  Que a verdade núa e crúa
  Se não diz a toda a gente.

7 Ter um nariz como tem,
  Um nariz de papagaio;
  Nariz que, segundo dizem
  Já servio de pára-raio.

HOMENS

2 A completa formosura,
  Formosura sem igual,
  Assim o seu coração
  Se tornasse mais leal!

3 Vel-a bella, como é bella,
  A engraçada yáyá,
  Passeando desdenhosa
  Lá pelas ruas do Ingá.

4 Encontral-a penitente
  N'uma certa procissão,
  Que contra a febre amarella
  Se fez com bem devoção.

5 Vós a vistes em um baile
  Que no Cattete se deu,
  E logo o seu bello olhar
  Com donaire vos prendeu.

6 Não sei; que a moça é bem
  Encolhida qual tatú;
  No genio então não falemos,
  Que é mesmo um surucucú.

7 Ter dinheiro; por dinheiro
  De muito vós sois capaz;
  Elle é quem vos tira o somno,
  Descanso, saude e paz.

SENHORAS

8 Ser quem é, minha senhora,
  E ter o que elle só tem;
  Eis o motivo que fez-vos
  Ter-lhe amor, querer-lhe bem.

9 Dizer que jurava amar-vos
  Emquanto fosseis constante!
  Sois fiel, porém no entanto,
  Elle já tem outra amante!

10 Ter certa quéda p'ra uma
  Cousa que nós cá sabemos;
  Fazeis bem, minha senhora,
  Porém, calados fiquemos.

11 O saber trajar á moda
  No rigor como se diz,
  Qual se fôra um monsieur
  Vindo ha pouco de Pariz.

12 Ser bom, elegante e fino,
  Ter alguma educação,
  E com os olhos, que são negros,
  Ferir-vos no coração!

HOMENS

8 Ser como a meiga Ocarlina
  Ardendo em castos desejos;
  Tal qual pintou-a o Norberto
  Nos seus decantados beijos.

9 Vel-a á janella tão séria
  Que parecia uma santa,
  Tambem a cobra coral
  Quando quieta nos encanta.

10 Um refinado demonio
  Tomaste por lindo anjo!
  Não sei de que te agradaste,
  Meu refinado marmanjo!

11 Não sei o que achastes nessa
  Tão refalsada beata,
  Que além de feia e nojenta
  Tem catinga de barata!

12 Vel-a como viu o Indio
  A bella que o enfeitiçou,
  Que o nosso Gonçalves Dias
  Em versos eternisou.