Pacotilha poetica/Se casará agora, ou tarde ou nunca

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Pacotilha poetica
Se casará agora, ou tarde ou nunca


SENHORAS

2 Vós já lhe dissestes:— sim,
  E elle vos disse:— esperai,
  Esperai, não tenhais pressa,
  Por melhor tempo aguardai.

3 Cedo, cedo a Santa Igreja
  Verá tão bella união;
  Mas pedi não turbe a morte
  Depois tal satisfação.

4 Mais tarde; elle tem seus annos,
  Não é bello, mas que importa?
  Casai-vos; uma menina
  A um velho sempre conforta.

5 Cedo com elle, que diz
  Que vós sois anjo de amor!
  Mas cuidado que o menino
  Tem quéda para o rigor.

6 Nem agora, tarde ou nunca:
  Ah! fugi do casamento;
  Para vós qualquer sujeito
  Será do inferno um tormento.

7 Olé! cedo com um ricaço
  Desses que morrem á fome,
  Cujas riquezas no cofre
  Só a ferrugem consome.

HOMENS

2 Uma rica viuvinha,
  Que morre por se casar,
  Será cedo vossa esposa,
  Se algum tolo a não pilhar.

3 Achareis bom casamento
  Brevemente n'um zungú,
  Ha de ser com certa Mina
  Com quem vós comeis angú.

4 Agora para a semana
  Com certo horrendo tição,
  E' rica, porém de bichos,
  Que andarão por um milhão.

5 Amanhã, com uma tonta
  Casado vos achareis,
  E no Hospício de Azinhaga,
  Lá com ella morareis.

6 Nunca! que a vossa amante
  E' mesmo um surucucú,
  Feia qual uma coruja,
  Cascuda como um tatú.

7 Quando velho já vós fordes
  C'uma bruxa casareis,
  Sereis rico, pois só della
  Quatorze filhos tereis.

SENHORAS

8 Cedo; e o vosso marido
  Será rico — de nariz!
  Que ainda será maior
  Soffrendo uma cicatriz.

9 Elle quer já, mas papai
  Está o tempo a ganhar;
  Olhai, se não fôr agora,
  Nunca mais heis de casar.

10 Para o anno, porém vêde
  Que com esse casamento
  A's dentadas com o marido
  Vivereis em um tormento.

11 Não sei; os moços brigando
  Por causa de vós estão,
  Afinal vos casareis
  Com o que fôr valentão.

12 Cedo; os vossos lindos olhos
  Remexem os corações,
  Que não ha quem não se queixe
  Dessas vossas tentações!

HOMENS

8 Tarde e com moça pobre,
  Que ha pouco na procissão
  Levada era como um anjo,
  Sendo ella um diabão.

9 Num baile deveis achar
  Quem vos fará mui feliz;
  Amigo, não percais bailes,
  A cousa está por um triz!

10 Senhor, o vosso destino
  Não póde ser dos melhores;
  Ficareis sempre solteiro,
  Também não é dos peiores.

11 Nunca; que as moças já sabem
  Que vós sois um bandoleiro,
  Com coração de estalagem,
  E a inconstancia por caixeiro.

12 Nunca... Oh! que o homem chora
  Mas o que fazer-se ha de?
  Amigo, tendes remedio,
  Deixai tudo, ide ser frade.