Pacotilha poetica/Se souberem daquillo o que será

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Pacotilha poetica
Se souberem daquillo o que será


SENHORAS

2 O papai ha de zangar-se
  Nesse primeiro momento,
  Mas depois o fim da festa
  Virá a ser — casamento.

3 Vosso marido já sabe...
  Finge ainda ignorar,
  E por fim as vossas rixas
  Hão de o caldo lhe entornar.

4 Nada! todo o mundo sabe
  Desse antigo namorar,
  Pois por vós ficou maluco
  O Antonio quer casar.

5 Nada absolutamente;
  Que importa ter amadores:
  Elles vêm após teu rosto
  Com os encantos seductores.

6 Dirão que sois muito nescia,
  Que obrais sem discernimento,
  Que mereceis por castigo
  Ser encerrada em convento.

7 Aquillo... aquelles amores,
  Tudo tintim por tintim,
  O bom do velho já sabe,
  Pois temei-lhe o frenesim!

HOMENS

2 Aquillo é cousa espinhosa,
  E eu não sei que será,
  Aquillo se descobrirem
  De aquillo não passará.

3 Ireis destes pátrios lares
  Longe, remoto, saudoso,
  Viver vida amargurada,
  Vertendo pranto amargoso.

4 Mui folgarão os juizes,
  Os escrivães folgarão,
  Que á custa de vossas custas
  Todos elles terão pão.

5 Nada, nada, porém ella
  Confusa e de arrufos cheia,
  Assaz vos estimaria
  Boa cama na cadêa.

6 Ella dirá: «Não mais quero
  Amar um inconstante,
  Que por quatro negras Minas
  Deixou a melhor amante.»

7 Dirão: « A' fé de suas juras
  Faltou, que faltou a amor.»
  E nunca mais as mulheres
  Vos hão de ver sem rancor.

SENHORAS

8 Eu sei, porém não vos digo
  Para não vos prevenir,
  Nem quero ao vosso máo grado
  Fazer o povo se rir.

9 Uma duzia só de bolos.
  Vos dará o maridinho,
  Quando elle souber aquillo
  Com aquelle sujeitinho.

10 E para que vos mettestes
  Em camisa tão comprida?
  Agora chuchai no dedo,
  Que a cousa já está sabida.

11 Uns arrufos, umas iras
  De tudo resultará,
  Porém afinal de contas
  Tudo em paz terminará.

12 Neste domingo que vem
  Tudo se descobrirá,
  Ai de vós, ó culpadinha
  Que não sei o que será.

HOMENS

8 Apenas será sabido
  Do vosso bom confessor,
  Que castigos, penitencias,
  E rezas vos ha de impor.

9 Estais mais do que servido?
  Darão tão boas venturas
  Assumptos á prosa e versos,
  E mais a caricaturas.

10 N'outro tempo para India
  Irieis chorar pitangas,
  Hoje será vossa sorte
  Trabalhos nas presigangas.

11 Nesta vida nada, nada,
  Porém na outra veremos,
  Pois que jurys de compadres
  Lá por certo não teremos.

12 Venha lá o que vier,
  Dê aquillo no que der,
  O peior foi, meu amigo,
  Vos metterdes com mulher.