Pacotilha poetica/Se tem a fama de ser máo ou feio

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Pacotilha poetica
Se tem a fama de ser máo ou feio


SENHORAS

2 Quereis antes que vos diga
  Que de má, não é assim?
  Ninguem deseja ser feia,
  Porém vós o sois por fim.

3 No genio sois tão immensa
  Como um vil surucucú;
  Na belleza não se fala,
  Que sois mesmo um baiacú.

4 De ser má: pois sois bonita
  E tratais a todos mal,
  Só é feliz para comvosco
  Um aprendiz do Arsenal.

5 De má, porque do marido
  Beliscais sempre a caréca;
  De feia porque sois mesmo
  Uma grasnenta marreca.

6 De feia, que chamam feia,
  Toda a moça, inda que bella,
  Que trata pouco de si,
  Como de uma bagatella,

7 De feia, sendo bonita,
  E de má, sendo tão boa!
  Aqui ha cousa, senhora,
  O mundo não fala á tôa.

HOMENS

2 Sois máo, mas não para as moças,
  Pois para ella sois feio;
  Por isso a vossa vos deixa
  Por um moço do Correio.

3 Não vos acha ninguem bom,
  Que para todos sois máo;
  Té tendes para ser feio
  O nariz de picapáo.

4 Tendes orelhas de onça,
  E um pescoço largo e longo;
  No buço então não falemos
  Que é pêllo de camondongo.

5 Sois máo, sois muito iracundo,
  E campais de ser bonito,
  Com esse nariz de arára,
  E esses pés de periquito.

6 Apêzar de serdes bom
  E' vossa indole má;
  Sois bonito, mas o corpo
  Tem catinga de gambá.

7 De máo; vosso coração
  Goza assim tão boa fama;
  De feio, que o vosso rosto
  Até crianças desmama.

SENHORAS

8 De feia, sendo bonita,
  E não é mesmo um descôco?
  Chorai sempre; mas, menina,
  Quem matou vosso cabôclo?

9 De má, que o vosso amantetico
  Diz que não quereis amal-o,
  Pois morreis por um que vende
  Batatas de Cantagallo.

10 Sois feia, porém sois boa,
  Tendes p'ra tudo um geitinho...
  Que não ha quem vos não queira,
  Para ser o seu bemzinho.

11 De má, não sois, mas comtudo,
  Muito má vós pareceis,
  E sendo tão boazinha,
  Não sabeis quanto perdeis!

12 De má! Por isso acho tendes
  Quem para seu desafogo
  Vos deseje ver arder
  Como boneca de fogo.

HOMENS

8 Não ha quem vos possa ver,
  Que diga quem está ahi;
  Ora o mundo tem razão,
  Que sois mesmo um jaboty.

9 O nariz qual Pão de Assucar,
  Corcunda qual Corcovado,
  No genio onça bravia,
  Eis como sois retratado.

10 No genio sois meigo e terno,
  Na figura... bagatella,
  Passais só por ser mais feio
  Que a carranca da capella.

11 Caluda, a este respeito
  Nada diz-se na verdade;
  Oh! que homem tão ditoso!
  Que perfeita nullidade!

12 De máo ou feio? — De ambas,
  Ambas as cousas, tareco;
  No genio sois um corisco,
  E na figura um marreco.