Paulo/XIV

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Paulo por Bruno Seabra
Capítulo XIV


Paulo ocupava nesta corte um pequeno sótão. Já tinha dado todos os passos possíveis a ver se conseguia dos proclamados protetores das artes a chave de futuro porque o insensato moço nos seus instantes de sensações se deixou seduzir, a ponto de aventurar-se a sair daqueles lares que tão ditoso o faziam. Tinha dado todos os passos sem ter conseguido coisa alguma.

Os mestres da arte a quem o inexperiente apresentava as suas telas aconselhavam-no a deixar os pincéis porque, concluíam eles, os seus grandes defeitos estavam a clamar que o desventurado era antes um maníaco pela arte do que um artista.

— Ora, veja - dizia-lhe um a quem o malfadado apresentava o seu mais perfeito trabalho -; veja quanta falta de tino artístico vai por aqui!

E, além de outros muitos, notava-lhe o defeito de ter arregalado os olhos uma jibóia, que se retorcia às mãos de um índio que lhe apertava o pescoço!

Um outro notava ainda na mesma cobra um novo defeito - o ter ela deitado a língua fora da boca em ocasião tão crítica!

E novas faltas de tino artístico iam aparecendo, à proporção do número dos mestres!

Os senhores proclamados protetores das artes, esses então a primeira pergunta que dirigiam ao infeliz, quando lhes ia bater às portas e que, depois de ter estado como de quarentena por uma longa hora na sala de espera, tinha a honra de ser introduzido no gabinete de suas excelências, a primeira pergunta que lhe dirigiam era se o malfadado lhes levava alguma carta.

O ingênuo artista possuía bastante lhaneza para responder-lhes que só contava com a generosa bondade de suas excelências para o fim que levava às suas presenças, mas suas excelências também possuíam bastante falta de vergonha e incivilidade para responder-lhe que tinham muito que fazer naquela ocasião!

E sem mais preâmbulos despediam-no com uma cortesia de esguelha, se dão licença à frase!

O desvalido, completamente desenganado por todos os lados, descoroçoou.

Havia perto de seis meses que estava na corte, não convinha demorar-se mais.

Era preciso apressar-se em tornar àquela obscuridade para que nascera, ao seio amigo e sincero de sua família, que o esperava ansiosa. Mas Paulo, apesar da sua economia em regrar a mesquinha quantia com que se animara a vir ao Rio de Janeiro, achava-se baldo de recursos. Algum dinheiro que lhe restava mal chegaria para satisfazer as primeiras precisões de duas semanas.

Revelou as circunstâncias a um galhofeiro moço, que morava em outro sótão tão fronteiro ao seu, e de quem lá era bastante amigo.