Paulo/XIX

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Paulo por Bruno Seabra
Capítulo XIX


Para evitar minuciosidades deixemos em branco todas as circunstâncias que, porventura, se seguiram nos dois dias que se seguiram àquela hora, certamente, a mais ingrata da vida do malfadado artista.

Emília fazia anos a oito de maio e casava-se nesse dia, segundo o que Henriqueta mandara dizer a Paulo.

Nesse dia, pois, o terceiro que se seguiu ao recebimento das inesperadas cartas, às onze e meia horas da noite, sentado junto a uma pequena mesa de pinho, Paulo parecia refletir profundamente sobre alguma coisa sinistra e escrevera porque, firmando os cotovelos sobre a mesa e apertando a cabeça entre as mãos, atentava fixamente para o que continha uma carta que tinha diante de si.

Com a testa cheia de rugas, os oitos injetados de sangue e os cabelos como que eriçados, Paulo roubava esse aspecto assustador do enfermo que exausto de forças desperta de um sono todo de febre.

— A vida - murmurou ele como que acordando das suas reflexões - E que me importa nesta hora a vida? Mulher formosa e bela sorria-se ternamente e acenava-me de longe... andei... andei... e ela acenando-me sempre... seus olhos fitos nos meus reverberavam no seio de minha alma os doces raios de fogo em que meu amor se aquecia... andei... andei... cada passo que dava era uma moita de roseiras que vicejavam no meu caminho... e a mulher acenando-me sempre! e eu a morrer de anelos por tocar-lhe nas fímbrias dos seus vestidos... cheguei... mas ah! que antes eu nunca chegasse!... aquela mulher que ao longe eu via tão formosa, aqui a topei, ai a vejo perto de mim... É o esqueleto da ilusão! e eis o que é a vida!... E minha mãe? - continuou ele mudando de tom. - Sim, e ela, a minha pobre mãe? Há de chorar-me... chorar-me muito, e com ela minha irmã... E tu? - continuou ele erguendo os olhos e fitando-os num pequeno quadro, que lhe ficava em frente, suspenso a cabeceira de seu leito.

Era aquele retrato de Emília, e o malfadado tirara em delírios de amor, e que trouxera consigo como um talismã precioso.

— E tu? - continuou ele mudando de posição e dirigindo-se ao retrato; - tu te hás de rir quando chorarem as desgraçadas... hás de rir quando te disserem que foi por ti que as lancei no abandono e desespero... hás de rir com desdém e depois com escárnio... Como me enganei e como tu me enganaste! Astuta! quem dirá que a esta hora já traíste todos os protestos de amor com que me acalentavas a alma? Quem dirá...

Paulo calou-se pondo-se em pé com arrebatamento.

Tinha os olhos esbugalhados e imóveis.

— Não! - exclamou ele com frenesi - não te há de o coração esta noite palpitar só de amores!... Lá te lembrarás de mim, porque daqui te envio os gemidos de minha alma, e ele transido pelos remorsos despertará do sono de amor para debater-se com o arrependimento...

E, aproximando-se mais do retrato, murmurou baixinho:

— Lembras-te?

Era na hora do crepúsculo da tarde. As nuvens de variadas cores compunham no azul do céu uma página de poesia que embevecia a alma.

As flores abriam-se e seus doces perfumes fugiam-lhes dos seios, como ais de vaporosas virgens.

E o ar era tão cheio de aroma como devia ser aquele que respiravam no Éden nossos primeiros pais.

As aves, por entre as ramas da mangueira, cantavam essas cópias, que nós não podíamos traduzir, mas e docemente nos feriam os ouvidos.

As brisas, as bordas dos riachos misturavam seus brandos cicios com os suaves murmúrios das águas, e esse contraste de harmonia soava terno como os arpejos de duas harpas que se saúdam enternecidas.

Lembras-te?

Era na hora em que os felizes têm muitos risos e os desditosos muitas lágrimas.

Se Malibran te escutasse quando me falavas, Malibran se prostrara a teus pés e te rendera culto. Sorrisses tu para Chatterton como sorriste para mim, e Chatterton recuara do suicídio, e não morrera no despertar de seus primeiros sonhos!

Tua voz era a harmonia.

Teu sorriso era a vida.

Quem descrera da harmonia ouvindo-te falar?

Quem não vivera, tu lhe sorrindo?

Eu te escutei e te ouvi, cri.

Tu me sorriste, vivi.

Cri-te!

A crença é o germe da esperança, a esperança alenta amor.

Que antes eu não te cresse, porque não te amara tanto!

Que antes eu não te ouvisse, porque não te crera nunca!

Envolta em cambraias cor de cisne tu me pareceste um anjo sobre a terra.

E eu cri que a alvura de tuas roupas simbolizava a candura de tua alma.

Fitaste em mim um tão profundo olhar de ternura que eu não pude mais desviar meus olhos dos teus. E me contemplaste com tanto amor como se foras mãe contemplando a um filho e via definhar-se.

E eu senti um estremecimento dentro em mim, que abalou-me todos os nervos e todas as fibras. Tu acabavas de magnetizar-me.

Lembras-te?

O sino da montanha saudava a hora da Ave-Maria.

A violeta fez recender o seu perfume, puro como um pensamento de donzela de 13 anos.

As aves cantaram.

Os riachos redobraram seus monótonos murmúrios.

As brisas voltejaram em torno das flores.

Flores, aves, riachos e brisas pareciam abençoar o nosso amor!

Lembras-te?

Era na hora do crepúsculo da tarde! que não te esqueças nunca dessa hora.

— Não, já não podes ouvir! - exclamou ele com voz e medindo com os seus olhos esbugalhados o retrato. - Agora soam-te aos ouvidos palavras mais vibrantes do que as minhas... Geme-te o coração... Sim, geme-te, mas é ao peso do prazer... Não, já não me podes ouvir!...

— Todos falam... - continuou o desgraçado, tendo-se calado por um momento na posição de quem escuta. - Todos falam... e cada palavra de um conviva, cada som da orquestra é um protesto de homenagem que te cai aos pés.. - minhas palavras perdem-se no ar antes que te cheguem aos ouvidos... já não me podes ouvir...

Depois, olhando em de redor de si, continuou com voz abafada:

— Vejo-te... vejo-te bem... aqui estás, oh! como estás bela e formosa!... cada volver dos teus olhos é uma estância de prazer... cada palavra que ele te dirige é uma centelha de amor e te vai ao coração... vão saindo os convivas... a orquestra vai adormecendo... apagam-se as luzes... já estão sós... reina o silêncio... o silêncio, que não lhes deixa dormir os corações... anseiam ambos... aqui e ali pelo soalho da alcova rola uma flor de laranjeira... e ele ali vai pisando sobre as flores... chega-se... murmuram... estremecem...

Paulo bradou com força:

— Desgraçado! afasta-te dessa mulher, porque ela vai morrer...

Dizendo como um louco, Paulo rasga com fúria a carta que estava alerta sobre a mesa.

— Não - continuou apontando para o retrato uma pistola, que naquele momento tirara de debaixo do travesseiro de seu leito; - não, não morrerei eu... morre tu... morre, que não faz falta ao mundo uma mulher fementida... amanhã por uma outra mulher palpitará o coração de teu amante... ele se há de esquecer de ti, como tu me esqueceste hoje.. . e minha mãe, a orfãzinha, não se há de esquecer nunca de seu filho, porque o mundo não lhe dará outro... morre tu... Ouves? Meia-noite... ajoelha-te desgraçada... reza o teu credo, que não ouvirás mais neste mundo o último som daquele relógio...

Um momento, e o eco do tiro repercutiu por todo o quarto, seguido do estrondo de um corpo que caíra!

Acabava de dar meia-noite.