Paulo/XVIII

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Paulo por Bruno Seabra
Capítulo XVIII


Até aquele dia Paulo dissimulara a sua mãe e ao comendador, nas cartas que lhes escrevia, não só as privações com que lutava, como também o desânimo de e estava possuído com o olhar de pouco apreço com que os protetores das artes o encaravam.

A mãe acreditava firmemente em tudo o que lhe mandava dizer o filho, bem como o próprio comendador, apesar de ter os olhos bem abertos a respeito das coisas aqui da corte.

Aquela respondia às cartas de seu filho, pedindo-lhe que se aviasse quanto antes, porque ela já não podia com as saudades. O comendador, da sua parte, respondia às cartas de seu futuro genro animando-o a atravessar as dificuldades que, porventura, se antepusessem às suas aspirações, rematando, sempre, com os reiterados protestos de sua estima e do amor de sua filha.

Emília também correspondia-se com o seu noivo, e suas cartas eram verdadeiros idílios do mais ardente e saudoso amor.

Naquele dia, à tarde, o malfadado artista recebeu as duas seguintes cartas, a primeira do comendador e a outra de sua mãe.

"Sr. Paulo.

Esta é escrita às pressas: não podendo ser longa, como pede o caso, julguei conveniente resumi-la o mais que me fosse possível. Sou forçado a primeira vez na minha vida, a quebrar a minha palavra o que deve ser relevado, porque o faço por amor de minha filha, que não tem ninguém por si neste mundo, a não ser eu, a quem muito pouco tempo resta para demorar-se nele até que o senhor, em cuja boa vontade acreditei sempre esteja em circunstâncias de fazê-la feliz.

Sou forçado, portanto, a romper o nosso compromisso, ainda em tempo, quando se oferece à minha filha um esposo, que não excede o sr. Paulo nos dotes do coração, mas que, infelizmente, o excede nos bens da fortuna.

Dispense-me de longas desculpas; faço uma grande idéia do seu juízo e presumo que será um dos primeiros a dar-me razão, considerando que sou pai e como tal responsável ante Deus e os homens pelo futuro de minha filha. Reconheço e aprecio todos os seus merecimentos; desgraçadamente, porém, o talento no nosso país não é base para futuro certo.

Inclusa remeto-lhe essa letra no valor de quinhentos mil-réis, sacada contra a casa do sr. Souto, muito conhecido nessa corte. São aqueles quinhentos mil-réis que deixou em meu poder para as precisões de sua mãe, que não chegou a precisar deles. Quis passá-los para as suas mãos, porém ela os rejeitou.

Creia na estima do seu

Admirador
B..."



"Querido filho,

Faço esta, filho, com o coração nas mãos, pensando no desgosto que terás com a notícia que te vou dar. Peço-te que deites o coração a larga, lembrando-te que no mundo não faltam mulheres. É a notícia, filho, que veio-me dizer há dias atrás, e quando menos o cuidava eu, o pai da menina Emília, que ia se mudar ele para a cidade, porque a filha ia casar-se com o filho de um fazendeiro muito rico, visto que ele, pai, tinha considerado melhor e viu que não tinhas grande futuro para fazeres a felicidade de sua filha. Mil cães danados mordam o desavergonhado que não reparou que retalhava o coração de tua mãe com aquelas palavras indignas de gente que tem vergonha.

E o noivo da cuja é um fulano Oliveira que não sei que casta de gente é e nem de onde veio. É o que sei, que esse anticristo tomou conhecimento com o doutor logo depois que daqui saíste e que de então foram a menina e seu pai pouco a pouco retirando-se da nossa amizade, o que me fez muitas vezes dizer à tua irmã que o coração me adivinhava alguma coisa triste. Meu dito, meu feito. Apesar de todos os pesares, não vejo, filho, que percas grande coisa com o desamor de uma requebradinha da laia da mina Emília. Olha, não se te acabe o mundo por isso. A mim mo disse a Henriqueta, que a última vez que trocou palavras com a descarada, dissera-lhe a tal que muito lhe custaria acostumar-se a viver ao pé de um homem que andasse sempre recendendo a óleo. Quem puxa aos seus, não degenera, filho; tão boa é a filha como o demo do pai. Ele aqui abriu a carteira com ares de ricaço, tirou umas notas e mas quis meter nas mãos, dizendo ser um dinheiro que te pertencia, porque lhe tinhas dado a guardar.

Fechei as mãos e disse-lhe que não tinha nada com o teu dinheiro, e que to remetesse ele. Não te sei dizer, filho, a gana que tive de atirar-me com unhas e dentes às goelas de semelhante satanás, que em vida mesmo já deve ter a alma nas profundezas dos infernos. Vem, filho, para a tua casa, e deixa estar, que ainda hei de ver-te casado com uma rapariga digna de ti.

Tua mãe do coração,

Inês."

Quem, certo do amor que transborda o coração do artista o prevenido do conteúdo daquelas cartas, estivesse de parte observando-o no momento em que as acabava de ler, admirar-se-ia de vê-lo ler e depois dobrar tranqüilamente aqueles papéis, a quem não é mal cabido o nome de sentenças de morte. Havia apenas a notar que Paulo estava trêmulo e bastante pálido. Um riso sardônico, ou antes, uma contorção nervosa moveu-lhe os lábios ao abrir a terceira carta que viera inclusa com a de sua mãe.

Eram frases de exprobrações que lhe escrevera sua irmã contra aquele que, com o seu próprio punho, participava a falta do cumprimento de sua palavra.

Henriqueta depois de mil exprobrações lançadas contra o comendador, dizia em sua carta que tinha ouvido dizer que Emília casava-se no dia de seus anos, justamente três dias depois dessa hora que desfolhava todas as rosas de esperanças, o amor trotara no coração do artista.

— Solo! - murmurou Paulo metendo nos bolsos as três cartas.

— Solo! - exclamou o outro quando viu que a felicidade não estava nas riquezas.

— Eugênio! Eugênio! - exclamo por minha vez, agora que vejo que também não está nas crenças.

E, soltando uma gargalhada estridente, pôs o chapéu na cabeça e desceu as escadas das suas águas-furtadas, cantarolando em meia voz:

Quem pensa recua,
Eu quero avançar;
Adeus, pensamento,
Não quero pensar;

redondilha que ouvira muitas vezes recitar Eugênio.