Paulo/XVII

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Paulo por Bruno Seabra
Capítulo XVII


Uma noite - principiou Eugênio - quando eu já não tinha amigos, e à mercê das circunstâncias ia vagando pelo mundo, despertei no meu áspero enxergão aos gritos de alguém que bradava por socorro. Já então pouco me importava com as lágrimas ou prazeres dos homens; entretanto, levantei-me maquinalmente e fui abrir o postigo a ver de onde partiam aqueles gritos. Uma mulher toda desgrenhada, com desespero, gritava que a socorressem. A desgraçada parecia esforçar-se por ter mil bocas para de um só tempo bradar por socorro.

— Quem socorre, quem socorre a minha filha? - grifava a mulher apontando para uma casa, que em sua frente se incendiava.

Saí, e ao pôr os pés na rua, fui abraçado pela consternada mãe, que dizia abraçando-me como querendo comover-me:

— Vá o senhor salvá-la pelo amor de Deus! Pelo amor de sua mãe, vá depressa! É minha filha, e ela dorme lá em cima no sótão.

— É impossível! - murmuraram algumas vozes.

Eram os curiosos que se aglomeravam.

— Impossível! - repetiu a desgraçada. - Oh! pelo amor da Virgem Santíssima, não digam que é impossível!

Daí não sei o que foi feito de mim.

De manhã acordei no meu leito.

Doía-me o corpo todo, que em diferentes partes estava queimado.

À minha cabeceira velavam duas mulheres. Conheci a mais idosa ao primeiro volver dos olhos: era a mulher que a noite passada me dirigira aquelas palavras consternadas, pedindo-me que salvasse a sua filha.

A outra, que não mostrava ter mais de 17 anos, era uma loura, de olhos azuis de tez fina e branca.

Ambas volveram-me seus olhos ao primeiro movimento que fiz acordando.

— Senhor - falou a primeira -, o que pagará tanta generosidade?

— E eu - balbuciou a outra - e eu o que tenho para dar-vos em paga da vida que me restituístes ?

— Minhas senhoras - respondi-lhes -, eu não sei do que se trata.

— É verdade - tornou a primeira -, assim deve ser. Quando - continuou ela dirigindo-se à loura -, eu ia a morrer de desespero ao responderem-me todos a quem implorava que te salvassem, que era impossível, ouvi gritarem todos a um tempo: está doido! está doido! Olhei... ai! que horror, filha! Este generoso senhor parecia um homem de fogo nadando por entre as chamas... Depois... ninguém o viu mais; dir-se-ia que as chamas o tinham devorado! Daí a um instante um estrondo horrível se fez ouvir. O sótão tinha caído, sacudido pelas labaredas.

— Mortos! - bradaram todos.

— Minha filha! - chamei-te com todo o desespero a que pode chegar a dor de uma mãe extremosa, e que num instante perde toda a esperança de tornar a ver a sua querida e única filha. Neste alarido de desespero, uma voz como a voz do anjo bom que consola os desgraçados nas suas agonias disse por sua vez: Salva! Está salva! Era este mesmo senhor que à beira do telhado do vizinho aparecia sustentando-te em seus braços desmaiada.

— Salvos! - clamaram admirados os circunstantes.

— Salva - clamei eu, que não sei dizer que prazer foi aquele que senti, cuidando em tornar a abraçar a filha, e para sempre julguei perdida.

— Graças a Deus, estavas salva, minha filha. Recebi-te em meus braços como o melhor tesouro. Foi nesse momento que vi desmaiar o teu benfeitor...

— Enfim - continuou Eugênio interrompendo-se e mudando de tom - aquela mulher disse ainda muita coisa enchendo-me os ouvidos das mais lisonjeiras palavras. Foi o melhor do caso, que no fim de uma semana a filha enchia o vácuo do coração desse sentimento que apelidam amor. Pela fidelidade de Sócrates, amei-a! Sim, amei-a! - repetiu ele com força. - Amei-a, como é capaz de amar o cético que renega a descrença para crer no amor.

— E ela ? - perguntou Paulo.

— Ela? - replicou Eugênio. - Amou-me também... - E continuou com ironia: - Lembrando-se, porém, um dia que eu não tinha meios para fazê-la feliz, teve medo da desgraça, saiu de casa e foi refugiar-se na alcova da felicidade, entre os braços de um libertino de bigodes retorcidos e cabeleira frisada... a mãe morreu de desgosto; eu continuei a viver para rir-me e ela para vender-se.

— Ainda não te dou razão - tornou-lhe Paulo -, com esse contrapeso das decepções e tua vida. Porque uma frágil mulher tornou-se filha ingrata e traidora amante, seduzida pelas mentidas promessas de um libertino, não sei que forte razão tenha o amante traído para descrer do amor. Acredito que amasses com o teu primeiro amor; mas esse amor ainda pode renascer porque não morreu farto de vida, adormeceram-no apenas, quando começava a viver. Quando encontrares a mulher, que nasceu para compreender-to, ele despertará, e com ele todas as crenças adormecidas que tens no coração.

Aqueles dois amigos, um cético, o outro cheio de crenças e ambos bastardos da fortuna, levaram mais longe as suas argüições sem que, afinal, nem um nem outro se desse por vencido.