Pensar é preciso/I/Alexandria e Helenismo

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Pensar é preciso por Salvatore D’ Onofrio
'Alexandria': Helenismo


Com a perda da independência da Grécia, ocupada pelos macedônicos, o centro de irradiação da cultura ocidental se deslocou de Atenas para Alexandria, cidade fundada em 331 a.C. por Alexandre Magno, no Delta do rio Nilo. Pela sua posição geográfica privilegiada, na confluência entre Oriente e Ocidente, a metrópole se tornou o ponto nevrálgico de diferentes civilizações. Ao Egito “faraônico” (de que trataremos no próximo capítulo) sucedeu o Egito helenístico, seguido sucessivamente pelo Egito romano, bizantino, muçulmano e, enfim, moderno.

Hélade, do grego Hellas, era o nome restrito à região central da Grécia antiga. Mais tarde, o nome heleno passou a ser usado como sinônimo de grego, em geral. Historicamente, os termos helenismo e helenístico indicam a difusão da cultura grega no período que vai das conquistas de Alexandre (331-323) no Oriente Médio e na Ásia até à dominação romana, que começou a partir do ano 31 a.C. Neste sentido, falamos de período helenístico como sinônimo de alexandrino. Ao contato com o mundo grego, os egípcios começaram a deixar de lado as antigas crenças, cultivando artes, ciência e filosofia. Alexandria, depois de Atenas e antes de Roma, tornou-se o centro irradiador de cultura, conservando e difundindo o patrimônio artístico, literário, filosófico e científico produzido pela criatividade do povo grego ao longo dos séculos anteriores. Na sua famosa Biblioteca se reuniam os maiores sábios da época (Arquimedes, Apolônio de Rodes, Teócrito, Calímaco, entre outros).

Mas o mundo helenístico, construído por Alexandre Magno, não se limitou ao Egito, pois ele levou a civilização grega para toda a bacia do Mediterrâneo e Oriente Médio, renovando culturas de vários povos que viviam nas margens dos rios Tigre e Eufrates. Babilônios e assírios, anteriormente à dominação dos grandes impérios da Pérsia (o atual Irã) e da Macedônia, devem ter tido uma civilização semelhante à dos egípcios. Escavações efetuadas, a partir da segunda metade do séc. XIX, colocaram em luz ruínas de antigas cidades (Assur e Babilônia, entre outras), exumando templos e palácios e revelando uma multidão de textos cuneiformes, com data provável a partir do ano 3.000. Tais descobertas contribuíram para o entendimento de vários trechos do Velho Testamento e de relatos de historiadores não religiosos. O helenismo teve o mérito de amalgamar as antigas civilizações formadas à margem dos rios Nilo, Tigre e Eufrates, realizando um sincretismo religioso entre elementos indígenas, politeísmo grego e a incipiente cultura latina. O deus grego Zeus é identificado com o romano Júpiter e o egípcio Osíris, assim como Afrodite com Vênus e Ísis.

A lição que podemos aprender de tal sincretismo é que a natureza humana é essencialmente a mesma, apesar de suas diferentes manifestações no espaço e no tempo. Não conformado com suas limitações, fraquezas e sofrimentos, o homem imagina a existência de seres sobrenaturais e de uma outra vida após a morte. Ele ergue os braços aos céus ou se prostra no chão, pedindo ajuda a divindades criadas a partir de elementos do mundo que ele conhece, mas conferindo-lhes poderes sobrenaturais. Invoca-sa a proteção dos deuses através de preces, ladainhas, procissões, oferendas, sacrifícios. Quando mais primitiva ou carente é a sociedade humana, mas necessidade sente de recorrer ao auxílio divino. Antigamente, como agora: veja-se a pieguice do povo frequentador das várias igrejas, especialmente evangélicas e muçulmanas!