Pensar é preciso/III/O Patriarca Abraão (circuncisão e sacrifício de Isaac)

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Pensar é preciso por Salvatore D’ Onofrio
O Patriarca Abraão (circuncisão e sacrifício de Isaac)


O Patriarca Abraão (séc. XVIII)

Abraão é o Patriarca ao qual estão ligadas as três grandes religiões monoteístas: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Pouco sabemos sobre sua origem histórica. Os estudiosos acham que foi um chefe de um clã arameu, tribo seminômade, que penetrou na região de Canaã (atual Palestina), proveniente da Mesopotâmia, entre o séc. XIX e XVIII. A opinião convergente é que Abraão viveu uns seis séculos antes de Moisés. Segundo a narração do Velho Testamento, Abraão foi escolhido por Deus para dar uma pátria às tribos hebraicas, que eram nômades. Ele instalou seu clã na cidade de Hebron, na região da Judéia (daí a etimologia do povo “hebreu” ou “judeu”), exercendo atividade pastoril.

Seu neto Jacó e seu bisneto José foram morar no Egito, no delta do Nilo, onde, como vimos, também viveu Moisés. A verdade é que, entre 2000 e 1500, a maioria dos povos da Ásia Ocidental e do Médio Oriente já havia sofrido influências dos impérios da Babilônia e do Egito, que apresentavam civilizações bem mais desenvolvidas. Somente no fim do séc. XIII o Egito cessou de exercer seu domínio sobre as cidades-estado da Cananéia. Portanto, ao falarmos de “êxodo”, não sabemos ao certo se foram os hebreus que saíram do Egito ou os egípcios que deixaram a região de Canaã. Tribos, que habitavam a região do Sinai, adoravam Jeová e haviam vivido sob o domínio egípcio, talvez tenham tido a impressão de que haviam sido libertados do Egito, mas sem sair de sua própria terra.

Seguindo de perto o relato bíblico, conforme o Gênesis: Abraão casou com Sara, mas não teve filhos. Por comum acordo do casal, o patriarca engravidou a escrava egípcia Agar, que deu à luz a Ismael. Deus apareceu a Abraão e fez com ele uma Aliança: ele seria o pai de um menino que nasceria, milagrosamente, do ventre estéril de sua velha esposa, cuja descendência dominaria o mundo. Abraão e Sara, então, geraram Isaac, que se tornou o pai de todos os judeus, enquanto Ismael daria origem ao povo muçulmano.

A circuncisão: o batismo pelo sangue

O pacto estabelecido entre Jeová e o patriarca Abraão, que implicava a promessa da Terra de Canaã (a atual Palestina), tinha, como contrapartida, a obrigatoriedade da circuncisão, que se tornaria o batismo dos hebreus. Trata-se de uma mini-cirurgia para remover o prepúcio, a pele que envolve a cabeça do pênis, feita pelo mohel, a pessoa experta nesse ofício, sempre no oitavo dia do nascimento da criança. Em algumas sociedades muçulmanas, também os bebês do sexo feminino são submetidos ao ritual da circuncisão: a raspagem do clitóris e dos grandes lábios, seguida pela costura da vagina, deixando apenas uma pequena abertura para a passagem do sangue e da urina. Há várias hipóteses para a explicação de práticas tão nojentas. A circuncisão seria um rito preparatório, um vestígio simbólico de sacrifícios de homens e de animais à divindade para obter proteção? Uma medida higiênica e profilática para impedir a acumulação da secreção genital com o fim de evitar infecções? Provocar o enfraquecimento do prazer sexual? Este último objetivo parece o mais plausível, pois é comum a todas as religiões dominar a sociedade pelo controle do instinto sexual.

É preciso também salientar que a circuncisão não foi uma invenção de Moisés. Os hebreus assimilaram o rito da circuncisão dos egípcios e, mais tarde, ensinaram-no aos muçulmanos, via Velho Testamento. Já os cristãos, de uma moralidade menos cruel, seguindo o exemplo de São João Batista, substituiram o batismo de sangue por um batisma incruento, mediante o uso da água, que purifica sem machucar. De qualquer forma, temos que admitir que a mutilação das genitálias infantis não é compatível com o argumento do “projeto”, a necessidade da existência do grande Arquiteto, o inteligente criador do universo: por que Deus faria nascer uma criança com o prepúcio para depois ordenar seu corte? Um bebezinho, que já nasce chorando pela desgraça de ter vindo ao mundo, logo deve ser submetido à dor de um derramamento de sangue. Tamanha crueldade não pode ser atribuída à vontade divina, mas apenas à estupidez humana.

O sacrifício de Isaac: a suma vergonha divina e humana

Deus pede a Abraão o sacrifício de seu filho único (Ismael, por ter sido gerado por uma escrava, não era considerado seu filho!) para testar sua fidelidade. O patriarca, obedecendo à voz do Senhor, ata as mãos e os pés de Isaac, coloca-o sobre o altar e pega num facão para degolar a criança. Mas um anjo intervém e substitui o menino por um carneiro para o sacrifício. Este episódio deixou uma mancha indelével na história do Velho Testamento. É inconcebível que um pai, seja ele deus ou homem, tenha a coragem de cometer um ato tão cruel! Vergonhoso é para quem ordena (Deus) e para quem obedece (Abraão). Pior é perceber que o patriarca conhecia muito bem o procedimento do sacrifício sangrento: prepara a lenha para o holocausto, amarra o garoto sobre ela, levanta a faca pronto a matar a criança como um animal.

E esse não é o único caso na história das religiões. Lembro apenas o sacrifício de Ifigênia: estamos na Grécia do séc. XII a.C. (quase na mesma época do bíblico Moisés), no início da Guerra de Tróia. Agamenão, o poderoso chefão da coligação grega, se vangloria de ser melhor caçador do que Diana. A deusa, então, se vinga exigindo o sacrifício de Ifigênia, a jovem filha de Agamenão. O pai, obedecendo à vontade divina, manda vir a filha da cidade de Micenas, com o pretexto de querê-la casar com o herói Aquiles. Mas ela encontra o altar, não preparado para o matrimônio, mas para o sacrifício humano. E também aqui, a divindade, no último instante, se apieda da jovem, substituindo-la por uma cerva. O poeta latino Lucrécio, ao comentar este episódio da mitologia grega na sua obra De Rerum Natura (Sobre a natureza das coisas), exclama:


Tantum religio potuit suadere malorium!
(Até que ponto a religião pode incentivar o crime!)


Este grande poeta romano viveu no primeiro século antes de Cristo e apresentou poeticamente a teoria atômica de Demócrito, o filósofo grego que tentara explicar, de uma forma materialista, a origem e a constituição do Universo. Lucrécio assumiu também a missão de divulgar os princípios éticos do filósofo Epicuro, que ensinava serem a ignorância e o medo os sustentáculos de qualquer religião. Ele antecedeu, por mais de dois milênios, os atuais pensadores Christopher Hitchens (Deus não é grande) e Richard Dawkins (Deus, um delírio), entre tantos outros, que demonstram como as religiões são nocivas ao desenvolvimento da civilização humana. Na verdade, ao longo dos séculos, sempre existiu gente que, fazendo uso da razão e do bom senso, contestasse os dogmas religiosos e o princípio da autoridade divina ou humana. Mas foram vozes isoladas e abafadas pelo poderio econômico, que se serve da religião para impor suas ideologias. A grande massa popular, pobre e ignorante, sempre foi (e continua sendo) vítima de impostores religiosos ou políticos.

Volto ao resumo do relato bíblico. Isaac, salvo do sacrifício, casou com Rebeca, que gerou Esaú e Jacó. Eram gêmeos, mas Isaac foi o primeiro a vir à luz, puxando Jacó que se segurou no seu calcanhar. Chegados à mocidade, porém, Esaú vendeu seu direito de primogênito por um prato de lentilhas, e casou, ao mesmo tempo, com duas mulheres, que lhe atormentaram a vida. Jacó vai para a Mesopotâmia, onde também ele, mas no prazo de uma semana, casa com duas jovens, as filhas de Labão, Lia e Raquel. Trabalha sete anos para conseguir a mão da amada Raquel, mas, na manhã seguinte à noite de núpcias, percebe que dormira com Lia, a filha mais velha de Labão, que o enganara, exigindo a promessa da obrigação de mais sete anos de trabalho para consentir seu casamento com Raquel.

Terminado o contrato de trabalho, Jacó volta para a região de Canaã, levando consigo Lia e Raquel, além de seus filhos e de todos os bens de Labão. Deus aparece a Jacó e lhe troca o nome: passaria a se chamar Israel. Raquel morre de parto ao dar à luz Benjamim e é enterrada em Belém. O penúltimo filho de Jacó, José, preferido pelo pai e, por isso, odiado pelos irmãos, é vendido a caravaneiros que o levam para o Egito, onde é comprado pelo poderoso eunuco Putifar e é apresentado ao Faraó como intérprete de sonhos. Por isso é promovido e pode ajudar seu pai e os irmãos que o seguiram no Egito. O Gênesis acaba com os funerais de Jacó.