Pensar é preciso/VI/O Teatro de Shakespeare

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Pensar é preciso por Salvatore D’ Onofrio
O Teatro de Shakespeare


O Teatro de Shakespeare


William Shakespeare (1564-1616) é o maior dramaturgo de todos os tempos. São atribuídas ao imortal gênio teatral da Inglaterra 38 peças, aproximadamente, entre tragédias, comédias e dramas históricos. Viveu a cavaleiro entre o Renascimento e o Barroco, absorvendo, do primeiro movimento, a cultura greco-romana e, do segundo, a perplexidade espiritual causada pela oposição entre a herança pagã e a moral cristã. Dedicou sua vida inteira ao teatro, funcionando como autor, ator, diretor, empresário, cenógrafo. Apenas como amostragem, eis a sinopse de três tragédias que apresentam as determinações espaciais e temporais mais recorrentes na dramaturgia do poeta inglês: a Roma dos Césares, a corte real do povo anglo-saxão, a Itália medieval e renascentista.


Júlio César

A peça está centrada sobre o assassinato político mais famoso da história do Ocidente: no dia 15 de março de 44 a.C., no palácio do Capitólio em Roma, Júlio César, cônsul e herói nacional, é morto a punhaladas por um grupo de senadores. As vitórias do grande general sobre os gauleses e sobre os inimigos internos, junto com a grande popularidade, suscitaram o temor de que César pusesse fim ao regime democrático. Alguns senadores por inveja, outros realmente preocupados com a sorte da república romana, resolvem conspirar, solicitando a adesão também do nobre Bruto, que César considerava como um filho. Fazendo pouco caso do conselho dos adivinhos e da esposa Calpúrnia, que previam os idos de março como fatídicos e nefastos, o cônsul vai à reunião no Capitólio, onde é circundado por vários senadores armados. Ao receber os primeiros golpes de punhais tenta se defender, mas desiste quando percebe que até seu melhor amigo está entre os conspiradores, pronunciando a famosa frase:

“Tu quoque, Brute, fili mi?” (Também você, Bruto, meu filho?).

Durante os funerais, o cônsul Marcus Antônio, quebrando o pacto de não acusar os conspiradores, após o discurso de Bruto, ele toma a palavra. Começa, então, a instigar a plebe contra os assassinos de César com um discurso sutil, usando a figura retórica da reticência, fingindo não querer dizer o que realmente diz:

“Amigos romanos...estou aqui para sepultar César, não para glorificá-lo... Bruto disse que ele era ambicioso e Bruto é um homem honrado... César trouxe muitos cativos para Roma, cujos resgates encheram os cofres do Estado... derramava lágrimas ao ouvir as queixas dos pobres... eu lhe apresentei uma coroa real e, por três vezes, César a recusou. Isto era ambição? Entretanto, Bruto disse que ele era ambicioso e, sem dúvida alguma, Bruto é um homem honrado”.

O discurso do cônsul do partido democrata alcança seu objetivo: Bruto, Cássio e os outros assassinos fogem de Roma, perseguidos pelas tropas de Otávio e Marcus Antônio. Em Filipos, cidade da Macedônia, acontece o enfrentamento. Bruto, vencido, acaba se suicidando. Ao morrer, ele exclama: “César, descansa agora”, pois o espectro do antigo amigo não deixava de persegui-lo.


Hamlet, Príncipe da Dinamarca

Da luta pelo poder na antiga Roma, Shakespeare passa a descrever sangrentos conflitos militares e políticos entre povos primitivos da Escandinávia para o domínio dos países da Dinamarca e da Noruega, no Norte da Europa. Sobre a figura de Hamlet foi se criando um mito que remonta ao séc. XII. A peça começa quando a morte de Hamlet Pai motiva o Príncipe Hamlet, seu filho, a retornar à corte de Elsenor, interrompendo os estudos na universidade de Wittenberg. O jovem fica furioso ao assistir ao novo casamento da rainha Gertrudes, com Cláudio, irmão de seu recém-falecido pai. Ironicamente, o jovem reflete: minha mãe fez uma grande economia, pois utilizara as flores do enterro para a festa do matrimônio!

O espectro do velho Rei Hamlet aparece nas ameias do castelo ao amigo Horácio e, depois, ao próprio filho, pedindo vingança, revelando que sua morte não fora natural, mas provocada pelo ciúme e pela ambição do irmão Cláudio. Ele estava descansando uma tarde no jardim, quando um veneno mortífero foi instilado no seu ouvido.

O jovem Hamlet faz um teste para confirmar a versão do fantasma: contrata uma companhia italiana para representar uma peça em que manda inserir uma cena semelhante à do envenenamento do pai. A perturbação de Cláudio convence o Príncipe, que maquina a vingança. Sem querer, começa matando o lorde camarista Polônio, pai da noiva Ofélia e espião de Cláudio. O rei-tio tenta se livrar do jovem mandando-o para a Inglaterra, acompanhado por dois capangas. Mas Hamlet consegue escapar e volta a Elsenor.

Enquanto estava longe, Ofélia, profundamente abalada pela morte do pai e pelo abandono do amado, acaba enlouquecendo e comete suicídio. Seu irmão Laertes, voltando da França, é induzido pelo Rei a desafiar Hamlet para vingar a morte do pai e da irmã. Cláudio, mais uma vez, se serve do veneno, colocando gotas no florete de Laertes e numa taça de vinho. E o veneno causa a morte dos quatro personagens: Hamlet e Laertes pelo florete envenenado, a rainha Gertrudes pelo vinho e Cláudio pelo florete e pelo vinho. Resta vivo apenas o amigo Horácio, incumbido de comunicar a Fortimbrás, Príncipe da Noruega, que era vontade do moribundo Hamlet que ele assumisse o trono da Dinamarca. A peça se encerra com as honras fúnebres prestadas ao príncipe Hamlet por Fortimbrás, pelos embaixadores da Inglaterra e pelo povo todo. Realmente, naquela época, “havia algo de podre no reino da Dinamarca”!

Esta peça é uma das mais representadas e comentadas ao longo da cultura ocidental. Como toda obra de arte verdadeira, ela é poliédrica, ensejando várias interpretações. Um sentido épico-político pode ser visto no aproveitamento do mito de Hamlet para explicar a derrota histórica da Dinamarca por parte da Noruega: antigamente, a Dinamarca, país poderoso que dominava as nações vizinhas da Noruega, Polônia e Inglaterra, entrou em decadência por causa da ambição e do ódio de seus governantes. Uma interpretação psicanalítica explicaria o desprezo de Hamlet pela bela noiva Ofélia. O complexo de Édipo levaria o jovem a considerar o tio como um rival na disputa do amor de Gertrudes. A conduta indecorosa da mãe provoca nele um profundo sentimento de misoginia, que o afasta do relacionamento sexual. Mas, a meu ver, o tema que perpassa esta peça de ponta a ponta e que se avoluma no monólogo do personagem Hamlet, que inicia com o famoso verso

“ser ou não ser, eis a questão!”

é a dúvida, a incerteza, a perplexidade. Shakespeare coloca aqui o dilema fundamental do ser humano: aceitar pacificamente o ultraje e a injustiça ou rebelar-se e enfrentar as adversidades, retrucando com as mesmas armas da perfídia e da violência? Não seria melhor refugiar-se no esquecimento do sono, do sonho, da morte? Mas como encontrar na morte o descanso de todas as opressões, se os suicidas são castigados com penas terríveis no desconhecido mundo do além?

Triste condição do ser humano, incapaz de enfrentar os males presentes e temeroso dos males futuros. O questionamento do sentido da vida, face ao mistério da morte, não inquietou apenas o homem da época do Barroco, atormentado pelo severo espírito da Contra-Reforma, mas as mais brilhantes inteligências do mundo da filosofia, da arte e da ciência, em todos os tempos. Daí a perene modernidade desta obra do poeta inglês.


Romeu e Julieta:

Na cidade de Verona, no Norte da Itália, duas poderosas famílias são inimigas juradas de morte: Montecchio e Capuleto. O jovem Romeu, da família dos Montecchio, resolve participar, mascarado, de um baile no palácio dos Capuleto. Ao ver a linda Julieta, sente-se atraído irresistivelmente. Seu olhar de amor é correspondido, mas, ao se apresentarem, os dois jovens ficam decepcionados, pois descobrem pertencer a famílias inimigas. Mas a atração amorosa é irresistível: Romeu, às escondidas, penetra nos jardins dos Capuleto e ouve Julieta na janela confessar às estrelas sua paixão pelo jovem Montecchio. Romeu se apresenta, então, e revela a reciprocidade do sentimento. Um padre franciscano, Frei Lourenço, amigo da família dos Montecchio, em segredo, celebra o casamento, na esperança de que o enlace apaziguasse as duas famílias rivais.

Mas a desgraça pairava no ar: numa briga entre amigos dos Montecchio e parentes dos Capuleto, Romeu acaba matando Teobaldo, primo de Julieta, que acabara de causar a morte de seu amigo Mercúrio. Romeu foge para a cidade de Mântua e Frei Lourenço prepara um plano para salvar o casal: pede a Julieta que tome um sonífero, parecendo um veneno, para fingir-se morta e ser sepultada. Romeu chega na sala mortuária e, não tendo recebido a carta de Frei Lourenço, pensa que a amada está morta de verdade. Suicida-se, então, para ficar ao lado da amada. Julieta acorda e, vendo Romeu morto, acaba trespassando seu peito com a espada do esposo. A peça termina com o arrependimento dos membros das duas famílias que põem fim às inimizades. A mensagem contida na cena final afirma o triunfo do amor sobre o ódio.

Todas as peças trágicas de Shakespeare estão construídas a partir de um fato histórico ou de um precedente cultural. E o drama Romeu e Julieta não foge à regra. Conforme os críticos, o episódio verídico teria acontecido na primeira década do séc. XIV, dando origem a poemas e dramas em francês e em inglês. Shakespeare, na construção de sua peça, se inspirou no poema Tragical History of Romeo and Juliet, publicado em 1562, cinco anos antes da primeira encenação da tragédia. Mas isso não tem muita importância, pois a concepção estética da Renascença, calcada sobre o conceito clássico de beleza, considerava a imitação como uma qualidade e não um defeito. A arte não reside no conteúdo, mas na forma como o material é utilizado. No caso da Literatura, o que vale é o arranjo estético da linguagem humana. E nisso o bardo inglês é insuperável!