Pensar é preciso/VI/Dom Quixote e a novela de Cavalaria

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Pensar é preciso por Salvatore D’frio
Dom Quixote e a novela de Cavalaria


Dom Quixote, de Cervantes: a novela de Cavalaria


<diva class="prose"> A Cavalaria, em sua origem romana, era uma ordem ou status social a que pertencia o cidadão que tinha meios para sustentar um cavalo com as vestimentas e as armas adequadas. A ordem equestre estava por baixo da classe senatorial e por cima da infantaria, constituída pelos soldados que provinham da plebe, o povão que fornecia ao Estado apenas a “prole”, isto é, seus filhos para ir à guerra. O termo plebeu, em oposição a patrício, mais tarde, na época de Kar Marx, será substituído por “proletário”, no mesmo sentido etimológico de ter sua única riqueza dos filhos (prole), que só dispunham da mão de obra para o trabalho.

Na Idade Média, os cavaleiros andantes tinham a função de transmitir notícias de um castelo para outro, participar de rodeios, proteger viúvas, mocinhas e crianças desamparadas, promover a ordem e a justiça. A imaginação popular foi criando inúmeras histórias sobre os feitos grandiosos destes cavaleiros. Menestréis narravam aventuras mirabolantes nos paços e nas tavernas, em prosa e em versos. Ouvir histórias era o principal meio de diversão de um povo analfabeto, numa época em que ainda nem se sonhava com imprensa, rádio, televisão, cinema, internet.

A obra literária que melhor retrata o mundo da cavalaria é El Engenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha, conhecida pelo título abreviado Dom Quixote. Seu autor é o espanhol Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616). O protagonista do romance é Alonso Quijano, fidalgo da província da Mancha, fanático leitor de livros de cavalaria. Lembro que a descoberta da imprensa pelo alemão Gutenberg, na segunda metade do séc. XV, facilitou o uso da leitura de textos sagrados e profanos, antes restrito a poucas pessoas em condições de adquirir manuscritos caríssimos pela raridade. Alonso, deixando-se envolver pelas aventuras fabulosas encontradas nos livros, confunde ficção com realidade e decide pôr em prática os ideais dos cavaleiros, andando pelo mundo para restabelecer o sentimento de honra e de justiça.

Escolhe o nome Dom Quixote de la Mancha, uma camponesa, que passa a chamar Dulcinéia do Toboso, como a dama do seu coração e o gordo Sancho Pança como escudeiro. Limpada uma velha armadura e montado no cavalo Rocinante parte em busca de aventuras. Chega a uma hospedaria e pede ao taverneiro, pensando que é o senhor do castelo, que o consagre cavaleiro, tendo por testemunhas duas prostitutas, tidas como nobres damas. Luta contra moinhos de vento, tomados por enormes gigantes. Sua derrota é justificada pela inveja de inimigos feiticeiros. Seguem-se outras aventuras, sempre descritas pelo modo irônico: confunde uma manada de ovelhas com um exército inimigo, um enterro com o rapto de um cavaleiro ferido, uma bacia de barbeiro com o elmo do lendário herói Mambrino.

Para escapar da polícia, Dom Quixote se refugia na serra Morena, onde fica em meditação, assumindo o nome de “Cavaleiro da Triste Figura”. Lá, é alcançado pelo vigário e o barbeiro, os amigos que estavam em sua busca. Eles arrumam um estratagema para conduzi-lo de volta a sua casa, onde o espera a sobrinha que mora com ele. Mas o herói escapa outra vez, indo até Toboso para rever a amada, confundida com uma moça feia e malcriada. Sempre acompanhado pelo fiel escudeiro, vai para Saragoça e luta contra um bacharel camuflado de “Cavaleiro dos Espelhos”. Em Barcelona, Dom Quixote e Sancho Pança são objetos de gozação, este último sendo eleito “Governador da ilha de Barataria”. Enfim, o mesmo bacharel, desta vez com o nome de “Cavaleiro da Branca Lua”, desafia nosso herói a um duelo, desta vez sob juramento de que, se derrotado, voltaria para sua terra. O que acontece. Dom Quixote chega em casa, adoece e morre.

Este é apenas um resumo de uma obra extensa e complexa, onde, na narrativa principal, a fábula de Dom Quixote, se encontram encaixadas várias histórias de personagens secundárias, ouvidas pelo protagonista em suas andanças pelas tavernas. Por isso, há críticos que consideram a obra de Cervantes não um romance, mas uma “novela”, devido a sua estrutura aberta, sempre suscetível de acrescentar mais um episódio, como acontece atualmente com os capítulos da novela de televisão. Aliás, o próprio autor tem consciência disso quando publica uma “Segunda Parte” do Dom Quixote, após o sucesso da primeira edição. Mas não é aqui o lugar de discussões técnicas sobre a estrutura e o valor estético da obra do grande escritor espanhol. Quero apenas salientar que, além do sentido denotativo, explícito, que salta aos olhos (a sátira aos livros de cavalaria e a gozação de seus heróis), a obra possibilita uma interpretação simbólica centrada na caracterização dos dois personagens principais.

O personagem Dom Quixote exprime o ideal cavaleiresco que admite a possibilidade da existência de um mundo onde reine a justiça social, a verdade, o amor puro, a beleza, a honestidade, a honra acima de tudo. Neste sentido, Cervantes retoma o mito bíblico do Paraíso Terrestre antes da culpa de Adão e a lenda pagã da Idade de Ouro, assim como fazem outros escritores utópicos da Renascença européia. O personagem Dom Quixote está fechado num subjetivismo absoluto, que julga tudo a partir de si próprio:

“yo pienso y es así...deben de ser y son”

Se as duas moças da taverna podem ser vistas como duas nobres donzelas, por que considerá-las prostitutas vulgares? Mais uma vez, permito-me estabelecer o paralelismo entre a fantasia poética e a crença religiosa: se o devoto pode acreditar na existência de um mundo sobrenatural, por que se contentar com as limitações da vida terrena? A arte, como a religião, prescinde de qualquer fundamentação lógica, colocando-se acima da filosofia, da história e da ciência.

Já o escudeiro Sancho Pança revela uma personalidade completamente oposta, representando o que é material e prático, a vida do burguês renascentista. A própria figura física já estabelece o contraste: gordo e barrigudo. Ele simboliza o conjunto de valores cultivados pelo meio ambiente, especialmente o desejo de riqueza e de uma posição social de prestígio: ele acompanha o herói exclusivamente porque lhe prometeu o governo de uma ilha. Sancho não tem instrução alguma, exprimindo-se por provérbios populares e deixando-se guiar pelo bom senso. Os dois personagens vivem apresentando opiniões opostas. Mas é próprio na descrição da tensão entre as duas forças opostas, o ideal e o real, que reside a beleza humana e poética do romance. O personagem Dom Quixote fica doente e morre quando é impedido de “sonhar seu sonho impossível”, quando se convence de que é inútil lutar contra a massificação da realidade.

Mas o personagem de uma obra de arte verdadeira morre? É claro que não! Morre o autor, morre o ator que interpreta o papel, mas sua mensagem perpassa o tempo e o espaço. Dom Quixote está aí continuamente presente na poesia, no teatro, no cinema, na escultura, como um deus que muda de religião (judeu, cristão, muçulmano), mas não de espiritualidade. Afinal, viver numa sociedade onde reine a justiça é sempre preferível ao domínio da prepotência, do egoísmo, da selvageria. Então, por que não continuar a luta para alcançar tal ideal? É uma questão de inteligência, de reflexão, de bom senso!