Pensar é preciso/VIII/A viagem de pesquisa

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Pensar é preciso por Salvatore D’ Onofrio
A viagem de pesquisa


A viagem de pesquisa

O cientista inglês Charles Darwin (1809-1882) realizou “A viagem de um naturalista ao redor do mundo” (nome de uma sua obra), a bordo do navio HMS Beagle (que deu nome a um canal perto da Terra do Fogo, no extremo sul do continente americano). Ao longo de cinco anos de viagem, pesquisando especialmente em ilhas e na costa da América do Sul, coletou mais de 230 toneladas de material orgânico (animais e vegetais exóticos). O estudo deste material o levou a formular a hipótese de que plantas, animais e seres humanos não haviam sido criados já plenamente formados, de uma única vez e por um ato divino, conforme a narração bíblica. Todas as entidades vivas desenvolveram-se aos poucos, durante um longo período de adaptação ao meio ambiente. Os gêneros e as espécies vegetais e animais, pois, não são fixos, mas em constante mutação e melhoramento, lutando pela sobrevivência conforme a lei do mais forte. E o ser humano não foge a esta lei da evolução natural.

Estava dada a largada para a mais apaixonante discussão entre os defensores da antiga teoria criacionista ou fixista, fundamentada na exegese bíblica, e os adeptos da teoria evolucionista, incrementada pelas descobertas das ciências naturais, especialmente da Biologia e da Genética. No Gênesis está escrito que Deus criou o mundo com apenas duas palavras: fiat lux e a claridade surgiu de repente do meio das trevas, as águas se separaram da terra e nasceram os peixes do mar e os animais terrestres e, enfim, o homem e a mulher, no prazo de seis dias, sem possibilidade de mistura entre seres de gêneros e espécies diferentes. Mas o avanço científico começou a demonstrar que as coisas não aconteceram bem assim, conforme o pensamento tradicional. Darwin substitui o fiat lux da crença na criação (o design divino) pela teoria da evolução natural, baseada no axioma natura non facit saltus (a natureza não dá pulos): a realidade física e biológica não é composta por compartimentos estanques, mas é um contínuo derivativo. As espécies distinguem-se pelas suas variedades em virtude de um longo processo de adaptação a ambientes diferentes e não por uma origem autônoma ou independente. Os evolucionistas passaram a sustentar a tese de que o princípio racional, que separa o homem da besta, não passa de um desenvolvimento automático e progressivo do cérebro, já implícito no instinto animal, que aumenta pelo acúmulo de experiências. Enfim, o homem seria um animal intelectualmente mais desenvolvido.

É preciso salientar que Darwin chegou à formulação de sua teoria não de repente, por um estalo ou insight, como acontecera com a maioria dos profetas religiosos que tiveram “revelações” divinas (Moisés, São Paulo, Maomé etc.). Quando jovem, conforme a educação cristã recebida (estudara para clérigo), ele acreditava na existência de um Criador e no design inteligente. Antes de biólogo, já fora teólogo. Mesmo durante sua viagem de pesquisa, especialmente nas ilhas Galápagos, ainda buscava conciliar o estudo da ciência com a celebração da obra de Deus. Somente após o retorno a Inglaterra, na medida em que ia examinando o material coletado, deu-se gradativamente sua conversão à verdade científica, objeto de uma obra portentosa, A Origem das Espécies (1859), que revolucionou o mundo, considerada a nova Bíblia. Diferentemente da religião, que se nutre de fantasias transmitidas de pais para filhos, a ciência repousa sobre fatos, cuja interpretação é submetida a longos testes de comprovação, antes de anunciar uma nova teoria. Após a publicação da Origem das Espécies, o público começou a duvidar da “sacralidade” dos textos bíblicos: o Pentateuco fora escrito realmente por um único autor e sob inspiração divina? Os Salmos de Davi e os Cânticos de Salomão expressavam a voz de Deus ou eram apenas tropos literários? Os episódios bíblicos eram realmente históricos ou apenas fatos fantasiados? E os milagres? Como acreditar que Jonas passasse três dias na barriga de uma baleia, saindo de lá ileso? Face à extrema improbabilidade de um milagre, a coerência não exigiria que rejeitássemos todos os outros: a transformação da água em vinho, a ressurreição dos mortos etc.?