Pensar é preciso/XII/Em busca de uma identidade nacional

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Pensar é preciso por Salvatore D’ Onofrio
Pensamento alargado


Em busca de uma identidade nacional

“Nosso principal objetivo deve ser reconstruir a sociedade
sobre uma base tal que a pobreza se torne impossível”

A expressão acima é de Oscar Wilde, escritor irlandês que viveu de 1854 a 1900. Tal afirmação foi quase fatídica: os povos do Norte da Europa (anglo-saxões e escandinavos, principalmente), um século depois, alcançaram um nível de cidadania que chega quase ao ideal. Eles debelaram a miséria, construindo um Estado de democracia e de liberdade, sem descuidar da justiça social: salários satisfatórios e conforme o mérito de cada um, planejamento familiar e controle de natalidade, eficiente sistema educacional e de saúde, transportes coletivos funcionais (trens velozes e metrôs).

Mas será que não existem pobres na Suécia ou na Dinamarca? Existem sim, mas podem reparar que são famílias de emigrantes que chegaram lá provenientes de regiões atrasadas da África, do Oriente Médio, dos Bálcãs, da América central e meridional. Algo semelhante ao que acontece no Brasil com nossos irmãos nordestinos que chegam na metrópole de São Paulo em busca de trabalho e acabam morando em favelas ou em baixo de viadutos.

Vou resumir o testemunho de um brasileiro que vive na Europa, veiculado pela Internet. É um admirável exemplo de prática de cidadania. Escreve ele:

“Já vai para 16 anos que estou aqui na Volvo, uma empresa sueca. Trabalhar com eles é uma convivência, no mínimo, interessante... A primeira vez que fui para lá, em 90, um colega sueco me pegava no hotel toda manhã. Era setembro: frio, nevasca. Chegávamos cedo na Volvo e ele estacionava o carro bem longe da porta de entrada (são 2.000 funcionários de carro). No primeiro dia eu não disse nada, no segundo, no terceiro... Depois, com um pouco mais de intimidade, numa manhã, perguntei: "Você tem lugar demarcado para estacionar aqui? Notei que chegamos cedo, o estacionamento vazio e você deixa o carro lá no final”. Ele me respondeu, simplesmente assim: "É que chegamos cedo, então temos tempo de caminhar - quem chegar mais tarde já vai estar atrasado: melhor que fique mais perto da porta. Você não acha?"

Pergunto eu: por que o Brasil e outros países emergentes não podem alcançar, eles também, tal alto grau de cidadania, respeitando o seu semelhante, pondo fim ao egoísmo, à miséria, à ignorância, à violência? Será que os povos do Norte da Europa são mais bonitos, mais inteligentes ou suas terras produzem frutos mais saborosos do que os nossos? Ou será porque eles pensam e trabalham? Dizia Santo Agostinho: “Si iste et ille, cur non ego?” (se um ou outro pôde se tornar santo, por que eu não posso também?). A meu ver, é um problema de consciência nacional e de vontade política. Os dois fatores criam um círculo vicioso: não há consciência nacional porque aos políticos não interessa educar o povo, pois vivem da exploração de sua ignorância; e não há vontade política porque a grande massa, pobre e desinformada, escolhe mal seus representantes, vendendo o voto em troca de um benefício qualquer.

Alguns estudiosos da nacionalidade brasileira sustentam a tese de que a origem de nosso atraso civilizacional estaria no tipo de colonização. Enquanto os ingleses chegaram na América do Norte para fazer da nova terra uma nova pátria, esquecendo-se do fog de Londres, os dominadores portugueses e espanhóis viviam sentindo “saudade da terrinha”, de sua pátria de origem. Daí as repetidas viagens de ida e volta entre os dois continentes para comercializar produtos. A intenção da exploração é evidenciada pela monocultura: não se produzia o que era necessário para o desenvolvimento do Brasil, mas apenas o que podia ser comercializado em grande quantidade para o exterior. Daí os sucessivos ciclos econômicos do pau-brasil, cacau, cana de açúcar, café, ouro e de outros minerais. Só se começou a plantar alface no Brasil quando chegaram italianos e japoneses, no começo do século passado.

Esta tese é quase incontestável, pois baseada numa evidência histórica. Como dizem os juristas, contra os fatos não há argumentos: em todo o continente americano, os países colonizados por povos ibéricos são menos desenvolvidos com relação aos que foram descobertos por etnias do Norte da Europa. Enquanto os imigrantes de lá realizavam o “sonho” americano em busca de liberdade e prosperidade, os de cá, os colonizadores espanhóis e portugueses do México, América Central e Meridional, instauravam o “pesadelo” dos regimes ditatoriais, que exploravam a força do trabalho dos escravos e dos indígenas.

Olhando o mapa do Norte-América, é fácil verificar que, das três Nações que o habitam, EUA, Canadá e México, este último, de cultura espanhola, é o mais atrasado. Enquanto duas novas nações colonizadas, ainda ligadas à Comunidade Britânica (Austrália e Nova Zelândia) apresentam um altíssimo IDH (índice de desenvolvimento humano). A África do Sul, antes de expulsar os ingleses, também era um país de civilização adiantada: foi realizado em Johanesburgo o primeiro transplante de coração humano.

A meu ver, o sucesso dos povos anglo-saxônicos, comparativamente aos de origem latina, reside em dois pilares: o amor ao trabalho e o culto da cidadania. Quem costuma viajar para o exterior facilmente nota a diferença de mentalidade e de comportamento. Nos países escandinavos é difícil encontrar gente na rua ou nos botequins, especialmente no período de trabalho, ou passando altas horas da madrugada em baladas. E isso porque cada pessoa adulta é educada para providenciar seu sustento. Lá não há tanta gente vivendo à custa do erário público, ocupando “cargos de confiança” sem necessidade de prestar concurso para provar sua competência. Aqui basta ser parente ou amigo de algum político e logo se arruma uma boquinha de “assessor”. Também não há “bolsas” governamentais que estimulam a indolência.

Em países plenamente desenvolvidos, o conceito de cidadania tem voz ativa e passiva, implicando direitos e deveres. Nossa última Constituição, infelizmente, fala centenas de vezes dos direitos (da mulher, da criança, dos trabalhadores etc.), mas nunca das obrigações dos cidadãos perante a sociedade. Viver em comunidade implica o respeito ao nosso semelhante e ao que é público, isto é “de todo o mundo” e não de ninguém, qualquer um podendo botar a mão. Lembro que, já faz mais de cinqüenta anos, visitando a Universidade de Cambridge na companhia de minha irmã casada com um inglês, uma sobrinha de três anos foi mexer num canteiro de flores. Meu cunhado logo a tirou de lá, dizendo: it’s not possible; it’s public. A criança podia tocar nas flores do jardim de sua casa, mas não de um lugar público. Um povo sai da barbárie e atinge um bom nível de civilização quando se convence de que o que é publico é mais importante do que é privado.

Infelizmente, uma pesquisa recente constatou que quase a metade dos brasileiros tolera a corrupção e o nepotismo, declarando que, se pudessem, eles também contratariam parentes e amigos para ocupar cargos públicos sem concurso, pouco se lixando com a falta de competência para exercer determinada função. E isto confirma o fato de que a sociedade brasileira ainda não percebeu a importância de separar o público do privado. É preciso tomar consciência de que desperdiçar dinheiro público é mais prejudicial à Nação do que assaltar bancos: o ladrão rouba o dinheiro apenas de uma instituição financeira e uma ou algumas vezes, enquanto o funcionário incompetente rouba o dinheiro dos impostos pagos por todos os cidadãos e de uma forma continuada, mesmo quando não trabalha mais e até depois da morre, sob forma de aposentadoria e pensão.