Peregrinaçam/LI

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Peregrinaçam por Fernão Mendes Pinto
CAP. LI.
Como Antonio de Faria ouue â

mão viuo o coſſayro Captitão do junco & do que paſſou com elle.


Auida eſta vitoria, da maneyra que tenho contado, ſe entendeo logo primeyro que tudo na cura de algũs q̃ ficarão feridos, por ſer negocio mais importante, apos iſſo, ſendo Antonio de Faria certificado que hum dos dezaſſeis que ſaluara, era o coſſayro, o mandou logo trazer perante ſy, & deſpois de o mandar curar de duas feridas que tinha lhe perguntou pelos moços dos Portugueſes, a que elle emperradamente reſpondeo que não ſabia & tornandoo a preguntar com ameaços, diſſe que lhe deſſem primeyro hũa pouca de agoa, porque ſe lhe tolhia a fala, trazia a agoa, a bebeo taõ apreſſadamente, que ſe lhe entornou quaſi toda, & porque não ficou ſatisfeito, tornou a pedir mais agoa, dizendo que ſe o fartaſſem bẽ della, prometia pela ley de Mafamede, & por todo ſeu alcorão de confeſfar tudo quanto quiſeſſem ſaber delle, & Antonio de Faria lha mandou trazer logo com hum fraſco de cinfeitos, de que elle não quiz comer, porem da agoa bebeo hũa grande quantidade, & tornandolhe a perguntar pelos moços Chriſtaõs, reſpondeo

que no payol da proa os acharião, & Antonio de Faria mandou tres ſoldados que os foſſem logo buſcar, os quais abrindo a eſcotilha para os chamarem acima, os viraõ a todos embaixo jazer degolados, de que ficaraõ tão ſobreſaltados, que com hũa tamanha grita que metia medo começaraõ a dizer, Ieſu, Ieſu, Ieſu, venha voſſa merce cá, & verà hũa couſa aſſaz laſtimoſa, Antonio de Faria com todos os mais que com elle eſtauão, correo logo á proa com muyta preſſa, & quando vio os moços jazer todos mortos hũs ſobre os ourtos, ficou tão corrado, que não podendo ter as lagrimas, pondo os olhos no Ceo, & com as maõs aleuantadas diſſe em voz alta & magoada, ó bendito ſejais meu Senhor Ieſu Chriſto por quão piadoſo & miſericordioſo ſois em ſofrerdes offenſa taõ graue como eſta, & mandandoos tirar acima, não auia homem que pudeſſe ter as lagrimas, & que não fizeſſe outros mayores eſtremos, vẽdo hũa molher com dous mininosde ſeis até ſete annos, ambos muyto fermoſos & innocentes deſcabeçados ſem nenhũa piedade, & os cinco moços que tinhaõ bradado por nòs com as tripas fora dos corpos & eſcalados pelas coſtas. Antonio de Fatia tornandoſe a aſſentar perguntou ao coſſayro, porque cauſa fizera tamanha crueldade naquelles innocentes que aly jazião? a que elle reſpondeo, que por lhe ſerem tredros em ſe moſtrarem a gente tanto ſua inimiga como eraõ portugueſes, & gritarem pelo ſeu Deos que lhes valeſſe, & quanto aos dous mininos diſſe que baſtaua ſerem filhos de Portugueſes, a quem nunca tiuera boa vontade, & com eſta meſma iſenção reſpondeo a outras algũas preguntas que lhe fizeraõ, & com tanta pertinacia como ſe fora o proprio demonio em carne. E perguntado ſe era Chriſtão, diſſe que não, mas que ja o fora no tempo que dom Paulo Gama fora Capitão de Malaca, & dizendolhe Antonio de Faria que pois ja fora Chriſtão, que couſa o mouera a deixar a ley de Chriſto, na qual tinha certa ſua ſaluação, por ſeguir a de Mafamede, na qual eſtaua clara a perdição de ſua alma? reſpondeo, que porque deſpois que fora Chriſtão, fora ſempre muyto deſprezado dos Portugueſes, porque onde antes, quãdo era Gentio, lhe fallauão todos co barrete na maõ, chamãdolhe Quiay Necodà, que era nomealo ſenhor capitaõ, deſpois que ſe fizera Chriſtaõ, vieraõ a fazer pouca conta delle, & q̃ ſe fora fazer Mouro em Bintaõ, onde deſpois de o ſer, el Rey do Iantana, que ſe achara preſente, o tratara ſempre com muyta honra, & os Mandarins todos lhe chamauão irmaõ, pelo que prometera, & aſsi o jurara no liuro das flores, que em quanto viueſſe ſeria inimiciſsimo da naçaõ Portu gueſa, & de todo o mais genero de homem que profeſſaſſe a ley Chriſtam, o que el Rey & o caciz Moulana lhe louuaraõ muyto, dizendo que ſe tal fizeſſe lhe ſegurauão ſer ſua alma bemauenturada. E perguntado

quanto tempo auia que ſe leuantara,
& que nauios de Portugueſes tinha

tomado, & quantos homẽs mortos, & que fazenda roubada; diſſe que de ſete annos a eſta parte, o primeyro nauio que tomara fora o junco de Luys de Pauia no rio de Liampoo, com quatrocentos bares de pimenta ſem droga nenhũa, onde matara dezoito Portugueſes, a fora os ſeus eſcrauos, de que não fazia caſo, por não ſerem gente que o ſatisfizeſſe no que tinha jurado, mas que deſpois por conjunçoẽs de acertos que achara no mar, tomara mais quatro embarcaçoẽs, nas quais matara perto de tre zentas peſſoas, mas que Portugueſes não ſerião mais que ſetenta, & que lhe parecia que podia chegar o que tinha tomado de mil & quinhentos atè mil & ſeiſcentos bares de pimenta, & outra fazenda, da qual el Rey de Paõ lhe tomara logo mais de a metade pelo recolher em ſua terra, & ſegurar dos Portugueſes, dandolhe para iſſo aquelles cem homẽs que andauão com elle, & lhe obedeceſſem como a Rey. E perguntado ſe matara mais Portugueſes, ou dera fauor para iſſo, reſpondeo que não, mas q̃ eſtando auia dous annos no rio do Choaboquec na coſta da China, fora ahy ter hum junco grande com muytos portugueſes, de que era Capitaõ hum homem muyto ſeu amigo que ſe chamaua Ruy Lobo.que dõ Eſteuão da Gama Capitaõ de Malaca mandara de veniaga, o qual deſpois de ter feita ſua fazenda ſe ſayra do porto embandeirado por yr muyto rico, & que auendo ja cinco dias que era partido, lhe abrira o junco hũa agoa muyto groſſa, & não a podendo vencer, lhe fora forçado tornar a demandar o porto donde partira, & vindo com vento rijo infunado com todas as vellas, por chegar mais depreſſa, ſe lhe fora ſupitamẽte ao fun do, de que ſe ſaluara o Ruy Lobo cõ dezaſſete Portugueſes, & algũs eſcrauos, & viera ter na Champana ao ilheo de Lamau ſem vella, nem agoa, nem mantimento algum. E confiado o Ruy Lobo na amizade antigua q̃ com elle tiuera, lhe pedira em joelhos chorando que o quiſeſſe recolher no ſeu junco, em que naquelle tempo eſtaua de caminho para Patane, porq̃ lhe prometia, & aſsi lho juraua como Chriſtaõ de lhe dar por iſſo dous mil cruzados, o que elle aceitara, mas q̃ deſpois de o ter recolhido, fora aconſelhado pelos Mouros q̃ ſe não fiaſſe em amizade de Chriſtaõ, ſe naõ queria perder a vida, porqire como cobraſſem mais forças, lhe auião de tomar o junco com quanta fazenda leuaua, porque aſsi o cuſtumauão de fazer em todas as partes onde ſe achauão, pelo qual receoſo elle de poder vir a ſer o q̃ os Mouros lhe dizião, os matara hũa noite a todos eſtãdo dormindo, de que deſpois ſe arrepẽdera muytas vezes. Antonio de Faria, & os mais q̃ eſtauão à roda ficaraõ taõ paſmados, quanto hum tão feyo & inorme caſo o requeria, & não o querendo mais inquirir, o mandou a elle & aos quatro; que inda eſtauão viuos,

matar, & lançar ao mar.