Peregrinaçam/XLVIII

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Peregrinaçam por Fernão Mendes Pinto
CAP. XXXXVIII.
Da informaçaõ que Antonio

de Faria aquy teue desta terra.


Chegados nós a eſte porto, ſurgimos no meyo de hũa angra que faz a terra junto de hum pequeno ilheo, q̃ demora ao ſul da entrada da barra, onde nos deixamos eſtar ſem ſaluarmos o porto nem fazermos eſtrondo nenhum, com determinaçaõ de tanto que foſſe noite mandarmos ſondar o rio, & tomar informaçaõ do que ſe pretendia ſaber. E logo como a lũa ſahio que ſeria ja quaſi às onze horas, mandou Antonio de Faria hũa das lanteaas que leuaua bem eſquipada, & com doze ſoldados, de que hia por Capitão hum Valentim Martins Dalpoem, homẽ ſeſudo, & para

muyto, & que de ſy tinha dado boa

conta em negocios deſta qualidade; eſte deſpois que partio, foy ſempre ſondando o rio atè chegar ao ſurgidouro da cidade, no qual tomou dous homẽs que achou dormindo nũa barcaça de louça, & tornandoſe a bordo ſem ſer ſentido, deu conta a Antonio de Faria de tudo o que achara, da grandeza do lugar, & dos poucos nauios que no porto eſtauão, por onde lhe parecia que ſem receyo nenhum podia entrar ſeguramente, porque ſe caſo foſſe que por algum ſucceſſo extraordinario não fizeſſe fazenda como deſejaua, ninguem lhe podia tolher tornarſe a ſayr cada vez que quizeſſe, porque o rio era todo muyto largo & limpo, & ſem baixo nem alfaique em que pudeſſe correr perigo. E auido conſelho ſobre o que niſto ſe faria, ſe aſſentou por parecer dos mais que os dous Mouros que ſe tomaraõ ſe não inquiriſſem com tratos como eſtaua determinado, aſsi por não os eſcandalizatem, como por não ſer neceſſario. E ſendo ja menham clara, deſpois que todos diſſeraõ hũa Ladainha com muyta deuaçaõ, & prometeraõ boas peças & ricas a noſſa Senhora do outeyro de Malaca para ornamentos da cafa, Antonio de Faria ſó por ſy, animando primeyra & afagando os dous Mouros, & ſegurandoos do medo que tinhaõ, lhes perguntou miudamente pelo q̃ pretendia ſaber, a que elles ambos por hũa boca diſſeraõ, que quanto ao entrar no rio não auia que temer pot ſer o milhor de toda aquella enſeada, & onde por muytas vezes entrauão & ſahião muyto mayores embarcaçoẽs que aquellas que trazião, porque o menos fundo que auia em todo elle, era de quinze atè vinte braças, & que da terra ſe não arreceaſſe, porque os moradores della eraõ gẽte por natureza muyto fraca, & que não tinhão armas, & dos eſtrangeyros que nella eſtauão, os mais eraõ mercadores que auia noue dias que tinhaõ vindo do reyno de Benão, em duas caſilas de quinhentos bois cada hũa com muyta prata, & aguila, & ſeda, & roupas de linho, & marfim, & cera, & lacre, & beijuim, & canfora, & ouro em pô, como o da ilha Çamatra, os quais com eſtas fazendas vinhão todos a buſcar pimenta, & drogas, & perlas da ilha de Ainão, & perguntados ſe auia por aquella coſta algũa armada, diſſeraõ que não, porque as mais das guerras que o Prechau Emperador dos Cauchins fazia, ou lhe fazião, eraõ por terra, & quando ſe fazião pelos rios erão em embarcaçoẽs pequenas de remo, mas não em nauios grandes como aquelles que trazia, porque não ania fundo para elles, & perguntados ſe eſtaua o ſeu Prechau aly perto, reſponderaõ que ſòs doze dias de caminho na cidade de Quangepaarù onde o mais do tempo reſidia com ſua caſa & corte, gouernando em paz & juſtiça o ſeu reyno, & perguntados que tiſouros & rendas tinha, reſponderaõ que as minas dos metais reſeruados à ſua

coroa

roa, rendião bem quinze mil picos de prata, de que a metade por ley diuina doSenhor que tudocriara, era dos pobres que cultiuauão as terras, para ſuſtentação de ſuas familias, mas que por aprazimento & conformidade de todos os pouos lhe largarão liuremente eſte direyto, paraque daly por diante os não conſtrangeſſe a pagarem tributo, nem a couſa que lhes deſſe opreſſaõ algũa, pelo qual os antigos Prechaus em cortes lhe tinhão jurado de aſsi o cumprirem em quanto o Sol deſſe luz à terra. Vendo Antonio de Faria a materia diſpoſta para poder ſaber algũas couſas que deſejaua, lhes perguntou que noticia tinhaõ daquillo que vião cos olhos, de noite no Ceo, & de dia na ligeireza do Sol, em que por tantas vezes lhe tinhaõ fallado? a que refponderaõ q̃ a verdadeyra verdade de toda a verdade era terem & crerem auer hum ſó Deos todo poderoſo, o qual aſsi como tudo criara, tudo conſeruaua, mas q̃ ſe o noſfo entendimento às vezes ſe embaraçaua na deſordem & deſconformidade de noſſos deſejos, não era da parte do Criador em quẽ não podia auer imperfeiçaõ, ſenão da parte do peccador, que por ſer impaciente julgaua ſegundo o humor do ſeu mao coração; & perguntados ſe tinhão em ſua ley q̃ viera Deos em algũ tempo ao mundo veſtido em carne de homem humano, diſſeraõ q̃ não, porque não podia auer couſa q̃ obrigaſſe a tamanho eſtremo, porque pela excelencia da natureza diuina eſtaua liure de noſſas miſerias, & muyto eſquecido de cubiçar tiſouros da terra, porq̃ tudo era pouquidade na preſença de ſeu reſplandor. E aſsi por eſtas preguntas como por outras que lhe fez Antonio de Faria, entendemos q̃ não tinha eſta gente ategora noticia nenhũa da noſſa verdade, mais que ſomente confeſſarem de boca o que ſeus olhos lhe moſtrão na pintura do Ceo, & na fermoſura do dia, a q̃ continuamente por ſuas cumbayas aleuantão as mãos dizendo, por tuas obras, Senhor, confeſſamos tua grandeza. Com iſto os mandou Antonio de Faria por liuremente em terra, dandolhe primeyro algũas peças, de que foraõ muyto contentes. Neſte tempo começando ja a ventar a viração, ſe fez à vella com muyta feſta & regozijo, & as gaueas toldadas de ſeda, & com ſua bandeyra de veniaga à Charachina; paraque os que aſsi o viſſem, entendeſſem que era elle mercador, & não gente de outra maneyra, & daly a hũa hora ſurgio no porto defronte do caiz da cidade, & fez ſua ſalua cõ pouco eſtrondo de artilharia, ao que logo de terra vieraõ dez ou doze almadias com muyto refreſco, & com tudo eſtranhandonos, & vẽdo no noſſo trajo & aſpeito q̃ não eramos Siames, nẽ Iaos, nem Malayos, nem outras naçoẽs q̃ ja tinhão viſtas, diſſerão, tão proueitoſa nos ſeja a todos a aluorada da freſca menham, quão bem aſſombrada parece eſta tarde na preſença do que temos

diãte dos olhos E chegãdo de todo o

numero de almadias hũa ſomente a bordo, pedio ſeguro para entrarem, a que foy reſpondido, que ſem nenhum receyo o podião fazer, porque todos eramos ſeus irmãos; & com iſto, de noue que vinhão na almadia, os tres ſomente ſubirão ao junco, & Antonio de Faria lhes fez muyto gaſalhado, & fazẽdoos aſſentar em hũa alcatifa, lhes diſſe que elle era hum mercador natural do reyno de Siaõ, & que vindo de veniaga para a ilha de Ainão, lhe diſſeraõ que naquella cidade faria milhor & mais ſeguramẽte ſua fazenda q̃ em outra parte, por ſerem os mercadores & o pouo della de mais verdade que os Chins daquella coſta & ilha de Ainão, a q̃ reſponderaõ, não eſtàs errado niſſo que dizes, porque ſe es mercador, como pareces, crê que em tudo ſe te farà aquy muyta honra, pelo qual ſeguramente podes dormir teu ſono deſcanſado, ſem te arreceares de nenhũa couſa.