Peregrinaçam/XXXII

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Peregrinaçam por Fernão Mendes Pinto
CAP. XXXII. Do que mais paſſou entre el Rey do Iantana, & o do Achem ſobre o negocio desta embaixada.


D

Eſpidido o Embaixador del Rey do Iãtana cõ eſta reſpoſta no meſmo dia q̃ foy ouuido, q̃ entre elles cuſtuma a ſer hum notauel deſprezo, tornando a leuar conſigo o preſente, que tambem lhe não quiz aceytar, para mais abatimẽto & afronta do meſmo Embaixador que o trazia, chegou a Cãpar, onde naquele tempo eſtaua o Rey do Iantana, o qual quando ſoube todas eſtas couſas, dizem que ficou tão colerico que affirmauão os ſeus q ̃por algũas vezes o viraõ chorar em ſegredo, como homem que fintira muyto o pouco caſo que o tyranno Achem fizera delle. E tornando outra vez a auer conſelho ſobre a determinaçaõ deſte negocio, ſe aſſentou que por todas as vias lhe fizeſſe guerra como a inimigo capital, & ſe entendeſſe logo primeyro que tudo em ſe tomar o reyno de Aarù, & a fortaleza de Puneticão, antes que o Achem o fortificaſſe mais. E para effeito diſto fez logo el Rey preſtes com a mòr preſteza que foy poſsiuel hũa groſſa armada de duzentas vellas de remo, de que a mayor parte eraõ lancharas, joangàs, & calaluzes, & quinze juncos dalto bordo, cõ mantimentos & muniçoẽs, & as mais couſas neceſſarias para eſta empreſa, & pòs nella por Capitão mòr o grande Laque Xemena ſeu Almirante, de quem as hiſtorias da India fazem muytas vezes menção, ao qual deu para ella dez mil homẽs de peleja, & quatro mil de chuzma, gente muyto eſcolhida & exercitada na guerra. O Almirante ſe partio logo com toda eſta frota, & chegando ao rio de Puneticão, onde eſtaua a fortaleza dos inimigos, acometeo por cinco vezes à eſcalla viſta com trezentas eſcadas, ajuntando a iſto muytas inuençoẽs de artificios de fogo, & não a podendo aſsi tomar a começou a bater com quarenta peças de artilharia groſſa, q̃ nunca ceſſaraõ de tirar de dia nem de noyte, de maneyra que a cabo de ſete dias que continuou a bataria, a mayor parte da fortaleza foy poſta por terra, & dando logo os inimigos o aſſalto, a entraraõ muyto valeroſamente, com morte de mil & quatrocentos Achẽs, de que a mayor parte era chegada hum dia antes que eſta frota chegaſſe, com hũ Capitão Turco ſobrinho do Baxà do Cayro, por nome Morado Arraiz, o qual tambẽ aly ficou morto com duzentos Turcos que tinha comſigo, ſem o Laque Xemena querer que ſe deſſe vida a nenhum delles. E com tanta preſsa tornou logo a repairar o que cayra, com eſtacadas, & entulhos de pedra em ſoſsa; em que a mayor parte da gente trabalhaua, que em doze dias tornou aſortaleza a ficar no eſtado primeyro, & cõ dous baluartes mais dauentagem. As nouas deſta frota q̃
el Rey do Iantana fazia nos portos de Bintão & Campar chegaraõ logo ao tyranno Rey Achem, o qual temendo perder o que tinha ganhado, fez logo aparelhar outra de cento & oitenta vellas, fuſtas, lancharas, & galeotas, & quinze galès de vinte & cinco bancos, na qual fez embarcar quinze mil homẽs, os doze mil de peleja, a que elles chamão de baileu, & os mais chuzma do remo, & por general deſta frota mandou o meſmo Heredim Mafamede que antes tomara eſte reyno, como atras fica dito, pelo ter por homem de grãdes eſpritos, & bem afortunado na guerra, o qual ſe partio com toda eſta frota, & chegando a hum lugar que ſe dizia Aapeſſumhee, quatro legoas do rio de Puneticão, ſoube por algũs peſcadores que ahy tomou, tudo o q̃ na fortaleza, & no reyno era paſſado, & como Laque Xemena eſtaua apoderado, aſsi da terra como do mar eſperando por elle, com a qual noua dizem que o Heredim Mafamede ficou muyto embaraçado, porque na verdade nunca lhe pareceo q̃ os inimigos fizeſſem tanto em tão pouco tempo. Tornando então conſelho ſobre o que ſe deuia de fazer, ſe affirmou que o voto dos mais fora, que ja que a fortaleza & o reyno eraõ tomados, & toda a ſua gente morta, & os inimigos eſtauão taõ poderoſos no mar, & na terra, que em todo caſo ſe deuia de tornar, viſto não eſtar o tempo conforme ao que elles cuydauão. Porem o Heredim Mafamede foy muyto contra iſſo, dizendo que antes queria morrer como homem, que viuer em deshonra como molher, porq̃ ja que ſeu Rey o eſcolhera para aquelle feito, não quiſeſſe Deos que elle perdeſſe põto da opinião que todos tinhaõ delle, pelo que prometia & juraua pelos oſſos de Mafamede, & por quantas alampadas continuamente ardião na ſua capella, de matar por tredro todo o que foſſe contra eſte ſeu parecer, & o mandar cozer viuo nũa caldeyra breu, como tambem auia de fazer ao meſmo Laque Xemena: & com eſte feruor & aluoroço ſe abalou daly dõde eſtaua ſurto, com grandes gritas, & grande vozaria de eſtromentos, & tammbores, & ſinos, como em ſemelhantes tempos coſtumão, & cometeo á vella & a remo a entrada do rio, & chegando à viſta da armada do Laque Xemena, elle que ja a eſte tẽpo eſtaua preſtes, & reformado de muyta & boa gente que de nouo lhe acudira de Pera, Bintão, Siaca, & de outros logares ahy comarcãos, abalou logo do lugar onde eſtaua,&o veyo receber ao meyo do rio, & deſpois de ſe fazerem de ambas as partes as ſaluas acuſtumadas de artilharia, arremeteraõ de voga arrancada hũs aos outros, & como hião deſejo.ſos de ſe chegarem, a briga ſe trauou entre elles de maneyra, que por eſpaço de quaſi hora & meya, ſe não enxergou melhoria em nenhũa das partes, ate que o Heredim Mafamede general dos Achẽs foy morto de hũa bomba de fogo, que lhe deu nos peitos, que logo o fez em dous pedaços
, com cuja morte os ſeus deſacoroçoarão de tal maneyra, que querendo voltar para hũa ponta que chamauão Batoquirim, com tenção de ahy feitos todos em hum corpo, ſe fazerem fortes atè vir a noite, em que determinauão de ſe acolherem, o não puderão fazer, porque a corrente da agoa, que era muyto grande, os diuidio em muytas partes. E deſta maneyra a armada do tyranno Achem ficou toda em poder do Laque Xemena, ſem eſcaparem della mais que ſós quatorze vellas, & as cento & ſeſſenta & ſeisforaõ tomadas, & mortos treze mil & quinhentos homens, a fora os mil & quatrocentos que morreraõ na tranqueyra. Chegadas eſtas quatorze vellas ao Achem, lhe deraõ conta de tudo o que paſſaua, de que dizem que ficou tão triſte, que vinte dias o não vio peſſoa nenhũa, no fim dos quais mandou cortar as cabeças aos Capitaẽs das quatorze vellas, & a todos os mais que nellas vinhão mandou rapar as barbas, & que ſo pena de ſerem ſerrados viuos daly por diante andaſſem ſempre veſtidos como molheres, tangendo com adufes por onde quer que foſſem, & que quando juraſſem ſobre algũa couſa, foſſe, afsi me Deos traga meu marido, ou aſsi eu veja prazer dos que pary. E eſtes homens vendoſe conſtrangidos a hum caſtigo tão afrontoſo, quaſi todos ſe deſterrarão, & muytos tomaraõ a morte com ſuas proprias mãos, hũs com peçonha, outros enforcandoſe, & alguns delles a ferro. E deſta maneyra que tenho contado, & que puntualmente aſsi paſſou na verdade, ficou o reyno de Aarù liure deſte tyranno Achem, & em poder do Rey do Iantana, atè o anno de mil & quinhentos ſeſſenta & quatro que o meſmo Achem com hũa ſrota de duzentas vellas, fingindo yr ſobre Patane, deu manhoſamente hũa noite no Iantana, onde o Rey então eſtava, & o tomou às mãos com ſuas molheres & filhos, & outra muyta gente, & os leuou catiuos para ſua , terra, onde de todos, ſem perdoar a nenhum, mandou fazer crueys juſtiças, & ao Rey com hum pao muyto groſſo fez botar os miolos fora, & tornou de nouo a ſenhorear o reyno de Aarù, de que logo intitulou por Rey o ſeu filho mais velho, que foy o que deſpois mataraõ em Malaca vindoa elle cercar, ſendo Capirão da fortaleza dom Lionis Pereyra filho do Cõde da Feira, que lha defendeo com tanto esforço, que pareceo mais milagre que obra natural, por ſer então tamanho o poder deſte inimigo, & os noſſos tão poucos em ſua comparação, que bem ſe pudera dizer com verdade que eraõ duzentos Mouros para cada Chriſtão.