Peregrinaçam/XXXIV

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Peregrinaçam por Fernão Mendes Pinto
CAP. XXXIIII.
Como cheguey ao reyno de Pão com estes perdidos, & do mais que aly paſſey.


A

Sſaz ſuſpẽſos & paſmados ficamos todos co q̃ ouuimos a eſte homẽ, vendo o triſte &miſerauel eſſa do a que chegarão elle & ſeus cõpanheyros, & naõ deixou tãbẽ de nos eſpãtar muyto ver o meyo por onde noſſo Señor por ſua miſericordia os quiz ſaluar tão milagroſamẽte, & lhe demos todos
por iſſo muytos louuores, & os nouos hoſpedes consolamos, & animamos fazẽdolhe aq̃llas chriſtãs lembrãças q̃ a noſſa pobre capacidade então nos enſinou. E tambem partimos cõ elles dos veſtidos que tinhamos, cõ q̃ elles ficarão algum tanto repairados naquella falta, & deitandoos nas camas em q̃ dormiamos, lhes fizemos os remedios que nos pareceo q̃ lhes poderião aproueitar para repouſarẽ, porque elles, pareee que por não dormirem auia tanto tempo, vinhão tão aruoados das cabeças que cahião no chão com hũs eſtremecimientos de maneyra que por hũa grande hora não tornauão em ſy. Daquy deſta paragem nos fomos demandar a barrã de Pão, onde chegamos quali à meya noite que ſurgimos na boca da barra defronte de hũa pouoação pequena que ſe dizia Campalarau, & como a menham foy clara, nos fomos a remo pelo rio acima ate a cidade, q̃ ſeria daly pouco mais de hũa legoa, onde achamos o Tomé Lobo, q̃, como diſſe, ahy reſidia por feitor do Capitão de Malaca, a quẽ entreguey a fazenda q̃ leuaua. E neſte dia nos fallecerão tres Portugueſes dos quatorze q̃ achamos perdidos, hum dos quais foy o Fernão Gil Porcalho Capitão do jũco, & cinco moços Chriſtaõs, os quais todos lãçamos de noite ao mar, cõ penedos atados nos peis & nos peſcoços paraque ſe foſſem ao fundo, porq̃ na cidade nolos não quiſerão deixar enterrar, cõ quãto Tomé Lobo lhe daua por iſſo quarenta cruzados, dãdo por razão q̃ ficaria a terra maldita, & incapaz de poder criar couſa algũa, por quãto aquelles defũtos não hião lauados do muyto porco q̃ tinhão comido, q̃ era o mais graue &inorme peccado q̃ quãtos na vida ſe podião imaginar: aos outros deſtes perdidos q̃ ficarão viuos, agaſalhou o Tomé Lobo, & os proueo a todos muyto abaſtadamẽte de tudo o q̃ lhes foy neceſſario atè cõualecerẽ, & ſe irẽ para Malaca. Daly a algũs dias querẽdo eu ſeguir minha viagẽ para onde leuaua determinado, q̃ era atè Patane, o Tomè Lobo mo não conſintio, pedindome muyto q̃ o não fizeſſe, porq̃ me affirmaua que ſe não auia por ſeguro naquella terra, por lhe dizerem que hum Tuão Xerrafaõ, homem muyto principal nella, tinha jurado de lhe pór o fogo à caſa, para o queimar dentro cõ quanta fazenda nella eſtiueſſe, por dizer que em Malaca lhe tomara hum feitor do Capitão cinco mil cruzados em beijoim, & ſeda, & aguila, a muyto menos preço do que valia, & lhos pagara em roupa podre a como quiſera, pelo q̃ dos cinco mil cruzados de emprego, q̃ em Malaca valião mais de dez mil, a fora o retorno de boas fazendas q̃ de lá pudera trazer em q̃ mõtaria quaſi outro tanto de ganho, não tirara mais q̃ ſòs ſetecẽtos cruzados. E q̃ ja por duas vezes o tinhão tentado com arroydo feytiço, ſó a fim de elle ſayr fora, & o matarem na briga, pelo qual ſendo caſo q̃ ſocedeſſe algũa couſa daquellas de q̃ ſe temia, não ſeria mao acharme eu aly para ſaluar a fazenda que aly tinha,

porq̃ ſe não perdeſſe á mingoa, a que eu, deſpois de lhe dar algũas rezoẽs por minha parte, q̃ me elle não quiz aceitar, dandome ſempre outras em contrario das que lhe eu daua, lhe vim em fim a dizer, q̃ ſendo caſo que o mataſſem, como elle dizia, a fim de lhe roubarem aquella fazenda, q̃ onde poderia eu eſcapar q̃ me não fizeſſem o meſmo? E que ſe tinha aquella noua por tão certa como me affirmaua, q̃ porq̃ deixaua yr aquelles onze Portugueſes, ou porq̃ não ſe embarcaua com elles para Malaca? a q̃ reſpondeo: Sabe Deos quão arrependido eu eſtou diſſo, mas ja q̃ o eu não fiz como dizeis, fazey vos agora iſto q̃ vos eu peço, & requeyro da parte do ſenhor Capitão, aquẽ logo ey de eſcreuer, & dar conta de todas eſtas couſas que paſſey com voſco, & elle vos não ha de ter a bem deixardeſme aquy ſó cõ ſua fazenda, q̃ não he tão pouca q̃ não paſſe de trinta mil cruzados de emprego, & meus quaſi outros tãtos. Eu, vedome aſsi cõfuſo entre o requerimẽto q̃ me elle fazia para ficar, & o perigo q̃ eu corria ſe ficaſſe, não me ſabia determinar a qual deſtes dous eſtremos me inclinaſſe, pelo qual, deſpois de lançar minhas cõtas, me foy forçado por melhor remedio, vir a concerto cõ elle por eſta maneyra, q̃ ſe dentro de quinze dias ſe não auiaſſe para ſe embarcar comigo naquella lanchara para Patane, com a fazenda feita em ouro & pedraria, de que então auia na terra muyta quantidade, aſsi de hũa couſa como de outra, que eu me pudeſſe yr liuremenre para onde leuaua minha derrota, o que elle aceitou, & deſta maneyra ficamos ambos bem auindos.