Qual dos dois?/X

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Qual dos dois? por Machado de Assis
Capítulo X


No fim de quinze dias, recebeu Daniel um bilhete do tio de Augusta convidando-o a ir passar a noite com ele.

Deveria ir? Sem dúvida que sim. Não queria parecer que se metia à cara da moça. O orgulho lutava nele por dois modos; lutava, retendo-o para não parecer que a adulava; lutava impelindo-o para lá, a ver se triunfava dela. É difícil que, de uma luta colocada neste terreno, venha bom resultado.

Daniel só pela tarde adiante resolveu ir à casa de Augusta.

Era uma reunião íntima; conversou-se e tocou-se; não se dançou.

O tio de Augusta desejou que Daniel considerasse a casa como sua; que se não prendesse por simples consideração de cerimônias enfadonhas. Posto que Daniel tivesse em pouco a conversa das salas, não por desprezo refletivo, mas por gênio e educação, todavia não ficava na sombra desde que lhe fosse necessário desempenhar-se como cavalheiro polido. Tinha natural espírito; sua conversa era fácil, brilhante, sem ser profunda, coisa que agrada absolutamente às mulheres. Além disso, o rapaz queria impor-se no espírito da moça; e como fazê-lo senão por meio desses triunfos de eloqüência familiar?

Mas Augusta parecia conhecer todas essas armas e a intenção com que eram manejadas; tratou Daniel como a todos os outros, em perfeito pé de igualdade. Nem lhe concedeu desta vez a distinção do desdém, que tanto agrada a certos caracteres; nivelou-o com as demais pessoas.

Numa ocasião, pediu um dos amigos da casa que a moça cantasse a cavatina da Norma, justamente na ocasião em que Daniel, por entabular intimidade, lhe pedia um pedaço de Lúcia.

Colocada entre os dois pedidos, Augusta observou:

— Não posso executar ambas as coisas ao mesmo tempo. Uma há de ser primeira. Qual delas? Resolvam entre si.

Enquanto o sujeito que pedira a Norma inclinava-se diante de Daniel, cedendo-lhe a vez, Augusta com ar distraído e indiferente brincava com as tranças de uma amiga que se lhe aproximara e que ia acompanhá-la ao piano.

Arranjara as coisas de modo que, nem mostrava preferência, nem desdém por Daniel, o que aconteceria (pensava ela) se cantasse primeiro ou depois o trecho reclamado pelo rapaz.

Estes e outros incidentes produziram em Daniel o efeito natural; o orgulho foi-se pouco a pouco transformando; quando dali saiu, naquela noite, já se pode dizer que no coração do rapaz rompia a aurora do amor.

E, coisa singular, esse amor não era, como em outros casos, um resultado de simpatia, mas sim da antipatia de duas criaturas, que, se se odiassem alguma vez, seriam mortais inimigos.