Questão de vaidade/III

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Questão de vaidade por Machado de Assis
Capítulo III


Eduardo leu esta carta com avidez, e releu-a para compreendê-la melhor, visto ser a primeira leitura demasiado rápida.

Quinze minutos gastou nesta operação, e outros quinze em meditar as palavras do amigo Pedro Eloy. No fim de meia hora, fechou a carta e guardou-a na gaveta da secretária. Não estava convencido, estava abalado.

— Ora, por fim de contas, pensava ele, Pedro Eloy não é um papa; pode enganar-se. É talvez certo que se engane. Sou eu uma criança ou um ignorante? Não sinto eu o contrário do que ele me escreve?

Fazendo estas reflexões e outras no mesmo sentido, Eduardo vestiu-se e saiu.

Esquecia-me dizer que Eduardo residia no Rio de Janeiro e Pedro Eloy em Petrópolis.

Eduardo era um dos moços mais elegantes da sociedade fluminense. Era ao mesmo tempo um roué de primeira força. Faltava-lhe o calção, o sapato raso e os mil enfeites do tempo de Luís XV. Durante os primeiros anos das suas correrias amatórias foi sempre remisso aos sentimentos de ordem elevada. Era vaidoso como um tolo e tolo como um vaidoso. Acreditava todas as mulheres mortas por ele, e algumas tiveram a desgraça de o confirmarem nessa idéia.

Um dia, levantou-se da cama com a crença original de estar apaixonado. Tinha conversado na véspera com a viúva Maria Luiza, e no dia seguinte, como tivesse sonhado com ela, julgou-se influenciado pelo deus do amor.

Feita a descoberta, correu a todos os amigos para dar-lhes conta da novidade. Receberam-na a gargalhadas. Foi esse o aguilhão maior para o espírito do nosso namorado. Declarou-se irremissivelmente apaixonado e jurou por Júpiter, como faria Alcibíades, que se havia de casar com Maria Luiza.

Depois de muitos dias de uma corte continuada e crescente, conseguiu Eduardo fazer-se amado. Mas fez-se deveras. Maria Luiza entregou-se toda àquele amor que a procurava na viuvez e achou da parte de sua velha mãe o beneplácito necessário.

Estavam as coisas neste pé quando se deu o episódio dos banhos de S. Domingos. Já havia dois dias que Eduardo não via Maria Luiza, e nos dez dias que se seguiram ao referido episódio apenas lá foi uma vez.

Saindo à rua, lembrou-se Eduardo de que devia visitar a viúva, não se dispensando de visitar a donzela. A primeira residia na Corte, devia ter a preferência. Eduardo encaminhou-se para a Rua do Lavradio, onde morava Maria Luísa.

No Rocio, encontrou dois amigos.

— Por onde andas tu? perguntou um deles.

— Eu sei!

— Ora, este simulado Antony não nos anda a fazer crer que se apaixonou pela tal viúva? acrescentou o outro amigo. É supor que comemos araras. Aquilo naturalmente é alguma destas uniões morganáticas que costumas contrair. Adeus, sê feliz!

— Zombem! zombem! exclamou Eduardo. O que fariam se soubessem de outras coisas! Há um fenômeno.

— Há dois, acudiu o primeiro que falara; é a paciência de cada um de nós em ouvir-te essas patranhas. Vai, vai!

Eduardo despediu-se dos amigos e foi caminho. Estava contente de si. Produzia o efeito que desejava. Era em não ser acreditado que estava a originalidade. Não é que ele estivesse absolutamente fingindo. À força de dizer que amava, convenceu-se disso. Mas, a convicção não era o amor.

Maria Luiza estava em casa com sua mãe. Estavam ambas na sala. Maria Luiza tocava e cantava ao piano. Ao subir os degraus do primeiro lanço da escada, chegaram aos ouvidos de Eduardo as palavras daquela ária deliciosa da Favorita: Ó mio Fernando...

A vaidade do rapaz era mais forte que o amor. Subindo as escadas dizia ele mentalmente: — Aquele mio Fernando quer dizer mio Eduardo.

Não quis bater palmas. A porta estava entreaberta. Adiantou a cabeça e deu com os olhos na viúva e na velha. A primeira não podia vê-lo. À velha, que logo o viu, fez Eduardo um sinal para que se calasse. Quando Maria Luiza terminou a ária, Eduardo bateu palmas e deu um bravo. Ela voltou-se e correu a recebê-lo.

Maria Luiza era realmente digna de um grande amor, mas da parte de outro homem que não fosse Eduardo. Amava-se nela tudo, até o amor que se lhe entornava dos olhos como bálsamo de um vaso demasiado cheio. Adivinhava-se que o primeiro marido não conhecera nunca o tesouro que possuíra e tomara aquela mulher pela razão que fez Abraão tomar a escrava Agar.

Era de estatura mediana. O rosto, antes cheio que magro, tinha a expressão dessas almas enérgicas e violentas que não transigem nem se sujeitam senão com a condição de se lhes dar em troca a felicidade e o bem. Os olhos eram castanhos como os cabelos. Tinha o nariz ligeiramente aquilino. A boca era das mais corretas e graciosas. Quanto ao resto do corpo, adivinhavam-se, através de um vestido de seda cor de pérola, as formas mais perfeitas que jamais sonhara Praxíteles.

Se Eduardo não estivesse tão atento a ver o efeito que produzia, poderia enxergar, quando Maria Luiza se levantou do piano, o mais delicado pé depois do da Cendrilon, meio escondido em um sapatinho raso de cetim.

Concebe-se que Maria Luiza, tal como a esbocei, inspirasse a Eduardo, não o amor, em que só ele acreditava, mas os desejos de que falava Pedro Eloy. Para os espíritos medíocres é fácil confundir uma e outra coisa. Diante de Maria Luiza, Eduardo perguntava a si mesmo se não era realmente amor o que sentia pela viúva. Já sabemos qual era a resposta que ele mesmo dava a esta íntima interrogação.

A mãe de Maria Luiza era desses tipos de velhice respeitável e afável a um tempo, com quem, sem perder a devida veneração, pode-se usar da mais franca familiaridade.

A recepção de Eduardo foi a melhor possível. A velha cumprimentou-o como se fora seu filho. Maria Luiza, com uma alegria a que se misturava certa dose de censura, disse-lhe:

— Graças a Deus! Estivemos ansiosas por vê-lo. Mamãe dizia que já se havia esquecido de nós; mas eu, não querendo acreditar isso, acreditei a verdade: melhores distrações que a nossa companhia o detiveram de certo.

— Não há tal, disse Eduardo aceitando a cadeira que a mãe de Maria Luiza lhe oferecia, e sentando-se defronte desta. Estive meio adoentado. Quis sair, apesar de tudo, mas o médico proibiu-me expressamente.

Uma mentira desta natureza e neste sentido, mesmo que se conheça, é ouvida com agrado. A humanidade é feita deste modo. Dispensa a verdade, uma vez que lhe preguem uma mentira lisonjeira.

Em honra de Maria Luiza, devo dizer que ela aceitou as palavras de Eduardo como se foram textos evangélicos.

Eduardo, tendo feito passar a invenção da moléstia, indagou da saúde e do bem estar das duas senhoras. A conversa demorou-se meia hora sobre assuntos indiferentes ao nosso. Finalmente, como viessem chamar a mãe de Maria Luiza, esta pôde ficar uns quinze minutos a sós com Eduardo.

Houve um instante de silêncio. Da parte de Maria Luiza era natural enleio. Da parte de Eduardo, não era natural, mas era enleio; provinha da paixão que ele acreditava em si.

A bela viúva rompeu o silêncio:

— Sabe que lamentei a sua falta?

— Chorou?

— Não acredita, mas chorei.

— Devo crer tamanha felicidade?

— Por que não?

— Não posso. Quando me lembro, em meus sonhos de ambição, que a Providência podia dar-me a mais invejável das felicidades, ocorre-me sempre que era preciso merecê-la; e eu não mereço, desta a que aludo, nem a décima parte.

Trocou-se entre ambos um olhar. Maria Luiza levantou-se. Eduardo seguiu-a com os olhos. Ela foi a uma jarra e tirou duas pequenas rosas brancas.

— Quer uma? perguntou a Eduardo, encaminhando-se para ele.

Eduardo estendeu a mão para aceitar a flor. Tocaram-se os dedos, e nesse contacto Maria Luiza estremeceu. Eduardo segurou a mão da viúva e levou-a à boca. Maria Luiza, abandonando a mão a Eduardo, inclinou a cabeça e deixou-se possuir da felicidade que aquele beijo, dado tão ardentemente, lhe fazia entrar no coração.

Depois, passado o primeiro enlevo, a viúva retirou a mão, foi para o piano, e começou a cantar com mais viva expressão a ária da Favorita.

Eduardo levantou-se e foi encostar-se ao piano.

Tinham ambos os olhos confundidos, e nesse enlevo cantou Maria Luiza e Eduardo ouviu.

Às últimas notas, entrou na sala a dona da casa.

— É uma singular predileção a tua por esta ária, minha filha.

— É realmente deliciosa, disse Eduardo.

— De poucas coisas gosto tanto como disto, acrescentou Maria Luiza.

Eduardo, depois de algumas palavras mais, declarou que ia sair.

- Já! disse a viúva.

— É verdade, tenho uma visita para fazer.

— Não janta conosco?

— Desculpe, não posso.

— Ao menos, virá tomar chá, não?

— Venho.

— Com certeza?

— Com certeza.

— Olhe, não falte, acrescentou a velha, olhando com certa inteligência para a filha.

— Não falto.

Eduardo apertou a mão à velha e a Maria Luiza. Esta tinha os olhos rasos de lágrimas de felicidade, de saudade, de amor, de tudo. Eduardo olhou para ela a última vez e disse, procurando a expressão mais terna de sua voz:

— Até logo!

— Até logo! respondeu a moça.

Eduardo saiu.

Maria Luiza foi à janela vê-lo ainda. Depois, voltando para dentro, deitou-se aos braços de sua mãe.

— Amas-lo, não, minha filha?

— Oh! muito! muito!

— Pois eu creio que ele também te ama. Juro-te que hão de ser felizes. Ele é só. Tu podias ter obstáculo em mim, mas eu só desejo a tua felicidade.