Questão de vaidade/VI

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Questão de vaidade por Machado de Assis
Capítulo VI


Três meses decorreram depois dos fatos que acabo de contar. Durante esse tempo houve a reprodução das mesmas visitas, alternadamente a Maria Luiza e a Sara.

Nem uma nem outra suspeitou nunca a felicidade de Eduardo. O episódio do lenço foi esquecido pela viúva, em cujo coração o amor crescia tanto como no de Sara, sem que entretanto o espírito de Eduardo se apercebesse de que uma tal bigamia moral podia levar a sérias conseqüências.

Duas vezes, no espaço dos três meses, Maria Luiza, em conversa com Eduardo, procurou encetar o assunto do casamento. O silêncio de Eduardo parecia-lhe timidez e a coitadinha cuidava adiantar alguma coisa iniciando uma conversação a esse respeito.

Enganara-se.

Eduardo, mal pressentia que o espírito de Maria Luiza se voltava para a igreja, mudava de assunto com tão rara habilidade que a própria moça não percebia a trama.

Das apreensões às incertezas, das incertezas ao desânimo, Maria Luiza não podia atinar, nem com a natureza do amor de Eduardo, nem com os fins de sua paixão.

Quanto a Sara, sentia-se feliz e nada ousava indagar nem saber. Aquele amor eram as primícias do seu coração. Julgava-se uma Virgínia e pensava ter encontrado o seu Paulo! A pobre menina não tinha nem o tato nem o contato do mundo; o tato para conhecer o espírito de Eduardo, o contato para saber da opinião que faziam dele. Vivia isolada, no meio de sua família, julgando o resto do mundo pela vida que levava e pelos afagos sinceros que recebia.

No fim do tempo de que acima falei, em uma quinta-feira, preparava-se Eduardo para um baile que dava o conselheiro C... Não sei por que motivo ou por que pretexto, Sara devia ir, e Eduardo, cuja fome de amor por Maria Luiza já era conhecida, queria, coram populo, mostrar a nova paixão ou, antes, a paixão concorrente da menina Sara.

Preparava-se, disse eu, mas não era bem isso, visto que eram apenas dez horas da manhã. Preparava-se para saborear as delícias que a admiração e a inveja lhe haviam de fornecer.

— Não há dúvida, pensava ele, sou amado por aquelas duas mulheres. Ambas me querem; adoram-me ambas. Mas por que motivo, eu, a quem tantas fortunas coube em sorte, estarei tão orgulhoso com o amor destas mulheres? É que as amo? Não há dúvida, amo-as; estremeço-as do mesmo modo. Diga lá o filósofo o que quiser, este duplo amor não é impossível; tanto não é, que existe. Oh! se existe...

Eduardo fazia estas reflexões contemplando os novelos de fumaça de um charuto havana. Tinha almoçado bem e fazia o quilo com aquele descanso dos homens que não têm cuidado no que há de ser a refeição seguinte. Estava em uma completa embriaguez dos sentidos.

Naquelas e em outras reflexões estava, quando o criado lhe trouxe uma carta que o correio acabava de entregar.

Abriu-a e leu-a rapidamente. Era de Pedro Eloy. Dizia o filósofo de Petrópolis:

“Meu caro Eduardo,

“Resolvi mandar-te novas minhas, já que não me mandas as tuas. Esperei o que podia esperar. De duas uma: ou esqueceste o velho amigo, ou continuas embriagado nessa fatal paixão dos sentidos, dupla, segundo dizes e eu acredito.

“Em qualquer caso, interessa-me escrever-te.

“Ah! Quem me dera ter-te agora no meu chalet, preso, atado, amordaçado, vendado, inofensivo, para descanso da humanidade e para a felicidade do meu coração!

“Estou certo que os meus conselhos, o meu exemplo e até o meu olhar bastariam para dar-te aquela regra de conduta, própria dos homens que aspiram e têm o direito de aspirar.

“Mas, enfim, deixemos lamúrias e falemos, conciso e preciso, do que importa saber.

“Vou apostar que as tuas duas paixões estão extintas, como já estão extintas as fogueiras que arderam no último São João. Há de ser assim. É de natureza desses assomos sensuais irem tão súbito como aparecem.

“Se não é assim, deixa que te considere o mais infeliz dos homens. Dirás que não é assim que te parece. Com efeito, aos espíritos jovens, mais ou menos gastos, o futuro é nada, o presente é tudo. Não lhes falem do que pode ser conseqüência dos atos de hoje. O que desejam é a satisfação dos prazeres, a realização dos caprichos, sem cuidar no desenlace das coisas, nem na lógica forçada do crime.

“Escrevi a palavra crime, e não foi por engano. É preciso dizer-te a verdade nua e crua. Ocultá-la, é ser de algum modo cúmplice nos teus atos, e eu não quero para mim semelhante papel.

“Dizes que amas a essas duas mulheres. Acreditem ou não acreditem, é certo que lhes fazes compreender a tua paixão. Supõe que elas te acreditem, e, por tuas maneiras e graças, consegues convencê-las, e mais, fazeres-te amado.

“O que resulta daqui? Resulta não uma iludida, mas duas; porque, não amando nenhuma, e tendo a tua paixão mui estreito limite, ambas se acham despojadas das ilusões do futuro e da fé que as alimentava.

“Que acontecerá? Qual será a conseqüência desse desencanto? Sabes tu a profundeza das duas almas, a quem iludes? Sabes de que serão capazes? Pressentes o fogo em que vais queimando as mãos?

“Falo-te uma linguagem em vez de outra; mas é a única que podes ouvir agora. A que eu devera falar era a linguagem do dever; em vez de indicar-te as conseqüências dos teus atos, eu devera dizer simplesmente que os teus atos eram criminosos diante da moral eterna. Mas far-me-ia ouvir?

“Se, em vez dos magníficos cabelos pretos que me adornam a cabeça, e dos olhos vivíssimos com que neste momento olho para este papel, eu tivesse honradas cãs e olhos moribundos, sei o que dirias ao ler esta carta. Sou moço, como tu; sou apto, como tu, para as paixões; mas há uma diferença: eu as domino, porque as paixões não são invencíveis, e só uma moral interesseira e egoísta pode dá-las como tais. Tenho, portanto, além do meu conselho, o meu exemplo.

“Olha, por que não vens passar uns dias comigo? Eu te prometo que começarei a cura do modo mais suave.

“Se não vieres, sou eu que vou, mas conforme a tua resposta. E repara bem: comigo é inútil o disfarce. Falta-te o talento de iludir a homens experimentados. Se mentires, eu cá sei como te hei de ler.

“Em qualquer caso, escreve-me: terei ao menos o prazer de ver letras de um amigo.

“Ah! se compreendesses bem o valor desta palavra!

“Adeus. Sê prudente. O Espírito Santo te ilumine.

Pedro Eloy.”

O tom decisivo, a linguagem nua desta carta não convenceram Eduardo. Não direi que o não abalassem. Custou-lhe engolir algumas expressões duras de Pedro Eloy. Mas o que era aquilo senão o que ele próprio pedira?

Eduardo pensou na resposta. Devia negar ou dizer a verdade? A prevenção de Pedro Eloy quanto à veracidade dos fatos indicara claramente que era inútil a mentira. Não havia senão isto: ou dizer a verdade ou não escrever. Eduardo refletiu alguns minutos; resolveu escrever dizendo a verdade, porém mais tarde.

Deitou a carta na secretária, e ia sair quando lhe foi anunciada a visita de Silvério.

Mandou entrar e daí a pouco o valente jogador de xadrez aparecia à porta, com ar risonho e gesto afetuoso.

Era a primeira vez que Silvério visitava Eduardo. Por isso, levou longos minutos a examinar e admirar a casa e a mobília, não se escondendo para dizer o que achava de mais gosto ou de mais delicado.

— Isto é propriamente uma casa de solteiro, dizia ele; mas, ainda casando, não sei que haja muita mudança a fazer. Basta substituir estes quadros...

— Que quadros? perguntou Eduardo.

— Estes, respondeu Silvério apontando para umas gravuras que pendiam na parede, representando cópias de várias estátuas célebres.

— Não me dirá por que, Sr. Silvério? perguntou Eduardo, atirando-se a uma cadeira de junco.

— Não são próprias, respondeu modestamente o antigo solicitador.

— Mas sabe o que representam esses quadros?

— Pois não estou vendo?

Eduardo contentou-se em sorrir.

— Substituídos os quadros, creio que não há mais nada, continuou Silvério. Ah!... sim, ainda há. É retirar esta caixa de fumo, estes cachimbos, estes charutos, enfim tudo quanto diz respeito ao vício de fumar.

— Isto é, se eu casar devo renunciar às obras-primas da arte e às obras-primas da indústria.

— Eu lhe digo. Sara não gosta de fumo...

— Sara! disse Eduardo, levantando-se da cadeira.

— Ah! lá pronunciei o nome... Não precisa vexar-se, maganão; já sabemos das suas artes... Fez-se amado!... Oh! e muito! Pois é assim! Ela não gosta de fumo, não gosta nada, mesmo nada, nada!

Eduardo estava espantado com as palavras de Silvério. Não atinava ainda com o fim daquilo. Viria sondá-lo? Viria repreendê-lo? Na dúvida, sentou-se vagarosamente na mesma cadeira e esperou que o ex-solicitador continuasse.

Silvério puxou outra cadeira e sentou-se defronte de Eduardo.

— Pois, meu caro Eduardo, é como lhe digo. Estão sabidas as suas travessuras. Sei que se amam com fervor e creio que só um receio pueril e inexplicável tem retardado, de sua parte, um pedido que só pode ser aceito com o maior alvoroço.

Eduardo, ouvindo estas palavras, calculou o pior; calculou que Silvério era comissário do pai de Sara. Em tal caso, cumpria-lhe responder de modo que nada sacrificasse. Ia falar, mas Silvério continuou:

— Não cuide, disse ele, que venho aqui por inspiração de terceiro. Venho por minha própria resolução. Mal soube do fato, corri a procurá-lo.

— E como soube? perguntou Eduardo.

— Muito simplesmente, por boca de Sara.

— Ah! ela contou...

— Contou tudo a mim e ao pai. Oh! é um anjo aquela menina. Se visse a simplicidade com que ela referiu os episódios do namoro, a franqueza com que se exprimiu no que tocava à paixão de que estava dominada, finalmente a sinceridade com que acreditava no seu amor! Era de fazer verter lágrimas... Oh! é um anjo... Ora diga-me; ter uma sobrinha assim não é uma ventura? E ter, além disso, um sobrinho como o senhor, não é uma bem-aventurança? Que belos dias não passaremos! Ela reclinada em seu ombro, e nós dois, em face um do outro, lutando palmo a palmo, peão a peão, uma daquelas partidas que de um simples paisano se faz um general consumado!

Eduardo sorriu-se a estas palavras de Silvério. Depois, procurando dar à sua voz alguma comoção, respondeu:

— É verdade que eu amo sua sobrinha. Era impossível vê-la sem amá-la. Contudo, foi-me difícil declarar-lhe a minha paixão. Poderia parecer a exigência de uma paga de um serviço que eu fiz como faria a outra qualquer pessoa.

— Oh!... interrompeu Silvério.

Eduardo continuou:

— Amo-a, sim, e toda a minha ventura seria poder chamá-la minha mulher.

— Mas isso é o que há de mais fácil.

— Sei. Se até agora não tenho dado um passo para isto, é porque espero que se ultimem certos negócios...

— Mas que negócios?

— Certos negócios... Não está longe, posso afiançar-lhe, e nem eu deixaria passar uma hora, apenas, sem munir-me do competente consentimento dela, e do pai. Creio que já tenho o seu.

— Tem o de todos, disse Silvério em voz de Estentor.

— Muito bem! Vejo que a minha felicidade é completa!

— Pois, senhor, não sei que negócios sejam esses, mas creio que se não dependesse disso a decisão, já há muito estaria a menina pedida e concluído o casamento.

— Ah! com certeza!

— Não sabe que mulher leva...

— Sei.

— É um serafim em alma e corpo.

Aqui começou uma ode à beleza e à candura de Sara, perfeitamente dividida em estrofes, antístrofes e epodos. Meia hora depois, Silvério saia de casa de Eduardo, depois de abraçá-lo e instar com ele para que não deixasse passar a ocasião de uma fortuna.

E mal saía o ex-solicitador, entrava um moleque de Maria Luiza com uma cartinha para Eduardo. Dizia a cartinha:

“Eduardo, — vou ao baile do conselheiro C... Disseste-me que estavas convidado. Não faltes...

Tua Maria Luiza”

Eduardo ficou alguns momentos sem pensar coisa alguma. Depois, relendo o bilhete, pôde refletir sobre o caso. As duas mulheres iam achar-se em presença. Poderiam não saber nada uma da outra, mas era possível que um nada lhes derramasse a luz no espírito. Como evitá-lo?

Eduardo pensou em não ir ao baile; mas, além do resultado que isso trazia, ocorreu-lhe que sua presença era até necessária, visto ser já conhecido o seu amor por Maria Luiza e por Sara.

Não comparecer ao baile era fazer supor que a afeição por aquelas duas mulheres, descendo à condição dos afetos comuns, tinha acabado como acabam os afetos comuns.

E depois, se alguma coisa pudesse acontecer, não era melhor que ele lá estivesse para desfazer uma impressão má ou desmentir uma suspeita?

Tais razões e outras mais decidiram Eduardo a afrontar as conseqüências de um encontro entre as duas mulheres debaixo do mesmo teto.

Em conseqüência, preparou-se para ir ao baile.

Às nove horas da noite entrava ele nos salões do conselheiro C..., meio receoso, meio tranqüilo, em todo caso orgulhoso com a circunstância especial de achar-se diante das duas mulheres que se tinham apaixonado por ele.

Depois de fazer os cumprimentos devidos aos donos da casa, indagou Eduardo se as duas tinham já chegado ao baile. Disseram-lhe que não. Com efeito, correu toda a casa sem encontrar vestígios de nenhuma pessoa das duas famílias.

Em uma das viagens que fazia em busca de Sara e Maria Luiza, Eduardo encontrou os dois amigos que tinham aparecido no Rocio, no dia em que, acompanhado por mim e pelo leitor, fizera uma visita à viúva da Rua do Lavradio.

— Oh! tu por aqui! disse um deles. É a primeira vez que apareces depois de tamanha ausência... Bem-vindo sejas!... Mas aposto que a viúva está por cá?

— Não, respondeu secamente Eduardo.

— Não? Então é que há de vir. Muito bem... Estão mesmo uma corda e uma caçamba.

— Disseram-me no outro dia, disse o segundo moço, brincando com a corrente do relógio, — que tinhas uma segunda namorada. Não quis crer...

— Por que não quiseste crer? perguntou Eduardo.

— Ora, porque de duas uma: ou não amas deveras, e então não terás duas, terás cem; ou amas deveras, e então amar a duas é absurdo.

— Absurdo! disse Eduardo.

— Pois não!

— Não achas? perguntou o primeiro.

— Não acho. É coisa muito possível.

— Aposto que amas realmente as duas e deveras?

— Deixemos o terreno dos fatos. Teoricamente, posso provar...

— Teoricamente, prova-se muita coisa...

— Por exemplo...

— Por exemplo, prova-se que estás corrigido, que mudaste de sistema de vida, enfim que és quase um santo; ora, não há maior falsidade...

— Por quê? perguntou Eduardo meio sério.

— Porque essa aparência de vida modesta e honesta desculpa a dureza do coração. És o mesmo. Estás mudando o ponto de vista e os meios de ação.

Eduardo sorriu-se e perguntou, pondo a mão no ombro de ambos:

— Dar-se-á caso que vocês também se tornassem filósofos?

— Filósofos como Epicuro. Somos o que éramos dantes; somente, somos e dizemos que o somos. Tu és e dizes que não és. Eis toda a diferença.

— Deveras? disse Eduardo.

— É certo. Anda tomar um copo de Xerez. Dizem que o conselheiro oferece desse vinho delicioso aos seus convidados conhecedores. Olha que é Xerez; é o vinho de Francisco I, o conhecedor de mulheres como tu, lembras-te? Souvent femme varie...

— Salta gaiato! disse alegremente Eduardo apartando-se dos dois amigos.

— Anda cá, disse um deles. Olha!

Apontando com a mão para a escadaria que ficava próxima, chamou a atenção de Eduardo para duas senhoras que entravam. Eram Maria Luiza e a mãe.

— Ah! disse Eduardo.

E voltando-se para os amigos:

— Adeus, até logo!

Os dois rapazes afastaram-se rindo. Eduardo foi ao encontro das duas senhoras.

Maria Luiza estava radiante. Tinha na verdade um porte de grandeza natural, e quando os seus olhos se voltaram em roda dos que a cercavam parecia uma castelã antiga contemplando os cavaleiros preparados para as justas. Trazia um vestido de seda cor de violeta com enfeites da mesma cor. Os cabelos, penteados à Stuart, moda então muito em voga, faziam realçar um fio de pérolas, cujo fecho de brilhantes em forma de estrela ficava-lhe no meio da cabeça. Trazia na mão um ramalhete de violetas. Quando Maria Luiza entrou no salão, onde as mais belas toilettes chamavam a atenção dos olhos masculinos e seus apêndices, — as lunetas, — houve uma espécie de rumor admirativo.

Todas as belezas foram um momento esquecidas por aquela que entrava vestida com tanta simplicidade e tão bom gosto. Maria Luiza, com aquele instinto admirável das mulheres, reparou no efeito que produzia e não deixou de gozar amplamente o prazer que lhe dava a geral admiração.

Os que a não conheciam indagavam do seu nome e os que a conheciam respondiam aos interpelantes, repetindo-se às vezes o nome de Eduardo como o senhor e possuidor daquele coração viúvo.

Eduardo, orgulhoso e radiante, olhava para todos do alto de seus olhos e da sua felicidade, com certo arzinho de quem mofava dos outros por serem menos venturosos ou menos lestos.

Enfim, a vida do baile começou. Anunciou-se uma valsa. Eduardo e Maria Luiza tomaram lugar entre os valsistas. Dentro de poucos minutos, pares retiravam-se para dar lugar à valsa doida, entusiasta do moço e da viúva.

Conversava eu um dia com um dos meus amigos poetas, que a morte levou, um talento que todos admiravam, um coração que muitos conheceram.

— Não sei, dizia-me Casimiro de Abreu, como se pode inventar a valsa, a melhor de todas as danças, para dançá-la em um salão diante de cem olhos. A valsa é realmente a mais graciosa, a mais natural, a mais bela das danças, mas nenhum olho humano deve presenciá-la. Então, os dois valsantes, que se amam, que vivem um pelo outro, podem embriagar-se na valsa, viver, não a vida do mundo, mas a vida dos anjos, a vida dos sonhos, a vida do céu!

— Casimiro, objetava eu, para dois corações que se amam, a multidão não é isolamento? E quando um par se atira à sala, aos primeiros compassos de uma valsa, não lhes desaparece tudo, não ficam eles sós, ermos, confundidos?

Casimiro adorava a valsa. Todos conhecem a bela poesia das Primaveras que traz este título.

A minha objeção, no caso de Eduardo e Maria Luiza, tinha meia aplicação ao fato: a viúva corria nos braços de Eduardo, e no meio dos cem olhos que os acompanhavam, como se estivesse em um deserto. Esqueceu-lhe tudo por Eduardo. Mas este não. Lembrou-se, e muito, que estava entre gente; calculava, adivinhava, redigia consigo mesmo os ditos, as observações, os olhares invejosos de toda aquela multidão.

Foi exatamente no fim da valsa que chegou a família de Almeida. Os rumores que sucederam à valsa de Eduardo e Maria Luiza foram dobrados com a presença de Sara.

Com efeito, se Maria Luiza tinha direito a excitar a admiração geral, não menos tinha a filha de Almeida.

Vestia de um modo simples e elegante. Um vestido de seda cinzento-pérola ocultava-lhe o corpo flexível e delgado. Os cabelos, penteados em ondas, não tinham outro enfeite mais que uma rosa branca, presa do lado esquerdo. No seio, que ondulava pelo cansaço e pela comoção, fulgurava uma simples cruzinha de ouro, enfeite que Sara usava em todas as solenidades, por ter-lhe sido dado por sua mãe.

Graças à vida retirada da família de Sara, ninguém ou muito pouca gente a conhecia. A dona da casa encarregou-se das necessárias apresentações.

Foram as duas proclamadas as rainhas do baile. Os cavalheiros dividiram-se em partidos, uns preferiam Maria Luiza, em quem viam a expressão mais completa da mulher; outros davam a palma a Sara, cuja beleza virginal e angélica inspirava idéias puramente do céu. Para uns, Maria Luiza era a estátua descida do pedestal; para outros, Sara era um anjo foragido da habitação divina.

No meio de tão divididas opiniões, Eduardo era o único que as admitia ambas, e por ambas se bateria se necessário fosse. Eduardo foi procurar Almeida, de cuja demora indagou com o maior interesse, ouvindo aliás as razões dadas por aquele com a maior indiferença. Eduardo pôde falar a Sara, fê-lo com todo o interesse de um amante saudoso. A moça parecia triste. Vinha imaginando encontrar Eduardo aflito com a sua ausência e achou-o no turbilhão de uma valsa, tão alegre ou mais que os outros. Mas este ressentimento no coração da moça era passageiro. Nem ela procurava indagar mais nada. Sabia ela acaso que Eduardo pudesse valsar com outra com a mesma efusão com que valsaria com ela? A pobre menina notava o fato, mas não tirava dele nenhum corolário. E depois, as maneiras de Eduardo convenciam tanto! No fim de dez minutos de conversação, Sara esquecera tudo, e estava feliz. Como Maria Luiza, na valsa, deixou-se ir na embriaguez da conversação e só se lembrou de que estava diante do homem que era escolhido pelo seu coração. Tinha uma singeleza adorável que Eduardo não sabia admirar, nem como amante, nem como poeta.

Não ocuparei o espírito do leitor com a narração do que se passou durante a noite do baile, e corro já ao melhor episódio, ao que importa saber em nossa história. Bem depressa se espalhou que as duas raparigas amavam Eduardo e que este parecia amá-las do mesmo modo. Aos que o interrogavam Eduardo respondia com o ar de homem que nega aquilo de que deseja convencer a todos.

Chegou a passear com ambas, uma em cada braço, conversando simbolicamente com ambas sem que elas se apercebessem de nada. Enfim, seria uma hora da noite, já o baile chegara ao ponto culminante, em que as cerimônias, sem desaparecerem de todo, dão lugar a uma respeitosa intimidade.

Sara e Maria Luiza, ou por simpatia, ou por força da fatalidade, davam-se já como duas amigas. O conselheiro convidou Sara para cantar alguma coisa. Sara estava cansada e pediu um quarto de hora. Durante este tempo retirou-se para o gabinete que servia de toilette das senhoras. Maria Luiza acompanhou-a.

— Precisava bem de um momento de descanso, disse Maria Luiza. Como está fatigada, meu Deus!

— A falta de hábito, respondeu Sara. Vivo sempre metida dentro de casa...

— Pois faz mal... As flores fizeram-se para o ar livre.

Sara sorriu.

— Diga-me. Isto é entre moças, pode dizer-se. De quantos rapazes tem visto hoje, nenhum lhe faz palpitar o coração?

A moça olhou para Maria Luiza e respondeu:

— Oh! sim! Um!

— Ainda bem!

— Por que se alegrou tanto?

— Por nada...

— Oh!

— Porque, se já começa a amar, deve compreender-me... Também eu amo e muito!...

— Amar é tão bom, não é? disse Sara, com uma adorável singeleza.

— Oh! se é! suspirou Maria Luiza.

Calaram-se ambas. No fim de alguns minutos de contemplação recíproca, as duas deitavam-se nos braços uma da outra.

— É o mais belo, mais gentil de quantos homens estão hoje nesta sala... Oh! eu excetuo o outro...

Dizendo estas palavras Maria Luiza deu um beijo em Sara.

Sara respondeu.

— Não sei se este é o mais belo e o mais gentil, sei que o amo. Se o não amasse, devia estimá-lo, porque me salvou a vida vai para quatro meses...

— Ah! temos romance?

— Não é romance, é realidade.

— E casam-se?

— Não sei, mas não penso nisso. Eu só faço o que ele quiser. Meu amor é um amor que não manda, nem eu creio que haja outros.

Maria Luiza estava pensativa.

Sara continuou:

— Estará na sala?

— Quem? O meu?

— Sim.

— Está, creio eu.

E Maria Luiza foi à porta. Abriu uma fresta entre as cortinas e procurou Eduardo com os olhos.

— Lá está ele... Olhe!

— Onde está? perguntou Sara.

— Ali encostado ao piano, do lado de lá, brinca com a luneta. Vê?

Sara, com os olhos colados à fresta, acompanhava a indicação de Maria Luiza.

Repentinamente deram as duas um grito.

Sara tinha reconhecido Eduardo; Maria Luiza viu na mão de Sara um lenço igual, com igual firma, ao que surpreendera na mão de Eduardo. As duas mulheres olharam-se, mudas, alguns segundos. Sara levou a mão ao peito. Parecia que se lhe quebrava o coração. Maria Luiza, com o lenço nos olhos, foi cair sobre o sofá, dizendo:

— Oh! que fatalidade!

Sara, depois de alguns segundos, foi procurar uma cadeira e sentou-se. Não pôde conter-se; as lágrimas rebentaram-lhe dos olhos. Houve um grande silêncio entre ambas. Fora batiam palmas ao pianista que acabava de entusiasmar o auditório tocando um coro de D. Juan, de Mozart.

Maria Luiza foi a primeira que se levantou e falou a Sara.

— Faz bem em chorar, disse ela. Era inocente, acreditou no amor dele. Sei quanto sofre pelo que eu mesma sofro. Foi uma fatalidade. Ambas púnhamos nele a nossa esperança com a nossa alma, ele enganava as coitadas de nós!

Sara não respondeu. Estava pálida como a morte. Maria Luiza pensou que fosse desmaiar. Foi buscar água-de-colônia e prestou-lhe os mais fraternais cuidados.

— Obrigada, não é nada, passou, disse Sara.

Depois, enxugou os olhos e levantou-se.

Na sala, procurava-se a filha de Almeida para cantar. A dona da casa dirigiu-se ao gabinete.

— Aí vem gente, disse Maria Luiza, vêm procurá-la para cantar. Deve ir. Devemos sair juntas, para que nada desconfiem.

Abriram-se as cortinas e viu-se saírem as duas moças, pálidas como duas estátuas, com os olhos vermelhos. Sara mal podia ter-se em pé. Obrigada a cumprir a promessa, Sara cantou. Mas que canto! Não eram notas, eram palavras d’alma que saíam da menina desiludida e infeliz.

Quando acabou, corriam-lhe as lágrimas.

Ao pé dela, Maria Luiza a acompanhava no sentimento e nas lágrimas silenciosas.

As duas infelizes saíram da sala no meio de aplausos comovidos.